A notícia de que Roger Machado chegou ao São Paulo já demitido – a crise está em outro lugar, resume um ciclo doloroso e previsível no clube paulista. A passagem relâmpago do técnico, que durou apenas dois meses e 17 jogos, com um desempenho aquém do esperado (sete vitórias, quatro empates e seis derrotas), culminou na eliminação vexatória na Copa do Brasil para o Juventude. Contudo, apontar o treinador como único culpado seria ignorar as profundas mazelas que assolam o Tricolor há anos.
Roger Machado Chegou ao São Paulo Já Demitido – A Crise Está em Outro Lugar: Uma Análise Profunda
É inegável que Roger Machado não conseguiu extrair o potencial máximo de um elenco considerado caro e de qualidade técnica, que contava com o brilho de jogadores como Artur. Seu trabalho, embora tenha tido lampejos positivos, com o time figurando na parte de cima da tabela do Brasileirão, não resistiu à pressão da constante instabilidade.
O ciclo de treinadores que desembarcam no Morumbi com um pé fora, como ocorreu com Crespo, Zubeldía, Carpini e agora, de certa forma, com Roger Machado, não é novidade. A questão central é que o São Paulo, em sua estrutura atual, não oferece a base de sustentação necessária para qualquer profissional prosperar. O técnico, invariavelmente, torna-se o bode expiatório, enquanto os problemas estruturais e políticos seguem intocados.
A Crise Política e Institucional: O Verdadeiro Inimigo do Tricolor
A raiz da instabilidade no São Paulo reside em uma crise política e institucional que se arrasta por anos. O cenário se agravou drasticamente após 16 de janeiro de 2026, com o afastamento de Julio Casares. As investigações e o desgaste interno minaram ainda mais a já fragilizada organização do clube, impedindo avanços urgentes em áreas vitais como o departamento médico, os centros de treinamento e a própria estabilidade do departamento de futebol.
A crise financeira, recently exposta em um áudio vazado do presidente Massis com a contundente declaração “Não temos dinheiro”, é outro pilar dessa deterioração. O clube há muito tempo carece de recursos para investimentos significativos, o que levanta a questão: como um gigante do futebol brasileiro pode resgatar sua saúde financeira?
As respostas podem vir de modelos como a SAF, que, apesar de apresentar riscos no contexto nacional, já se mostra como uma alternativa. Outras vias, como as trilhadas por Palmeiras e Flamengo há mais de uma década, com investimentos menores, programas robustos de sócio-torcedor e um forte investimento na base, também são caminhos a serem considerados. Em suma, um sacrifício presente em busca de um futuro mais próspero.
A Dificuldade em Aceitar o Sacrifício: O Ciclo Vicioso do São Paulo
O cerne do problema está na relutância do São Paulo em aceitar um período de sacrifício e reconstrução. A torcida, compreensivelmente, anseia por glórias imediatas, e a diretoria parece relutar em baixar as expectativas. Crespo, em seu momento de sinceridade chocante, mas realista, compreendeu essa dinâmica ao defender a luta pelos 46 pontos em vez de perpetuar o ciclo de instabilidade política e administrativa.
A história se repete de forma assustadora no futebol brasileiro, e o São Paulo é um reflexo disso. Treinadores como André Jardine (entre 2018 e 2019), Ricardo Gomes (em sua segunda passagem em 2016), e Doriva (que durou apenas 7 jogos em 2015) são exemplos de profissionais que chegaram com a corda no pescoço, prontos para serem demitidos na primeira adversidade.
Atualmente, Dorival Júnior, reconhecido como um dos melhores técnicos brasileiros do mercado, especialista em gerenciar crises – como provou em 2026 –, pode ser a próxima vítima desse ciclo. No entanto, é crucial entender que o problema transcende o comando técnico. A paz política e a estruturação são os verdadeiros pilares que faltam a um clube que já foi referência em administração entre 2005 e 2010. Uma era que parece ter ficado para trás, e sem sinais de retorno.
A busca por estabilidade no futebol é uma jornada complexa, onde a gestão de elenco e a saúde financeira se entrelaçam com as decisões estratégicas. Para entender mais sobre os desafios enfrentados por clubes em momentos de transição, o caso de Castillo no Fluminense, que requer cuidados especiais devido a uma lesão, demonstra a importância da atenção individualizada. Além disso, as punições a treinadores na Série B, como as que afetaram Carpini e Eduardo Barros, ilustram como as regras e a pressão podem impactar diretamente o trabalho dos comandantes.
A reestruturação de um clube de futebol envolve diversas frentes. No caso de negociações complexas, as divergências entre Vasco e investidores sobre o modelo de operação da SAF evidenciam os obstáculos na implementação de novos modelos de gestão. Enquanto isso, no cenário de revelações e projeções, o jovem Belé, elogiado por Abel Ferreira no Palmeiras e visado pela Europa, representa o potencial da base quando bem gerida.
A constante busca por resultados imediatos, muitas vezes, ofusca a necessidade de um planejamento a longo prazo. Na NBB, por exemplo, a decisão entre Brasília e Flamengo nas quartas de final mostra a intensidade e a competitividade do esporte, onde a preparação e a estratégia são cruciais para o sucesso.
O São Paulo precisa urgentemente olhar para dentro e reconhecer que a solução para suas mazelas não se resume a trocar de técnico. A reconstrução de uma base sólida, tanto política quanto administrativa, é o único caminho para que treinadores como Roger Machado não cheguem ao clube já com a etiqueta de demitidos, e para que o Tricolor possa, enfim, vislumbrar um futuro de glórias sustentáveis.

