A menos de dois anos da estreia da Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, o presidente americano Donald Trump tornou-se alvo central não só na política, mas também nos bastidores do futebol global. O sorteio dos grupos do torneio, que será realizado nesta sexta-feira em Washington, está cercado por expectativa não só esportiva, mas política, impulsionada pela presença e postura de Trump ao lado do presidente da Fifa, Gianni Infantino.
Trump e Infantino: parceria estratégica na preparação do Mundial
A aliança entre Trump e Infantino não é de agora, mas se intensificou desde o retorno do republicano ao comando da Casa Branca em 2024. O presidente dos EUA tem protagonizado anúncios e aparições públicas junto ao suíço, sempre em clima descontraído – incluindo o dia em que recebeu, no Salão Oval, uma réplica do troféu da Copa, avalizada por Infantino como gesto de reconhecimento. Segundo analistas de política internacional, a informalidade e o personalismo que marcam a diplomacia de Trump têm impacto direto nas decisões em torno do evento esportivo, desde negociações com as cidades-sede até assuntos sensíveis como segurança e imigração.
“Trump prospera com sensacionalismo. Sua fraqueza é a razão; sua força é a emoção. A Copa do Mundo é uma mina de ouro para o soft power, mas Trump enfrenta o desafio de um público interno que não abraça o futebol como outros líderes poderiam”, afirmou Stephen Duncombe, professor da Universidade de Nova York (NYU). Do outro lado, Infantino busca a chancela do presidente americano para expansão da Fifa e para garantir estabilidade política e financeira no maior mercado consumidor do planeta – não por acaso, a entidade abriu neste ano um escritório na Trump Tower, em Nova York.
Disputas políticas e polêmicas nos bastidores
A exposição de Trump, no entanto, vem acompanhada de críticas dentro e fora dos Estados Unidos. Sua postura firme contra cidades e estados governados por democratas, muitos deles entre as sedes da Copa, inflama a polarização política no país. Autoridades mexicanas e canadenses demonstraram desconforto com políticas migratórias e declarações de Trump, e até ameaças de boicote foram ventiladas pela seleção do Irã devido à restrição de vistos e à recente inclusão do país na lista de nações com processo de imigração suspenso.
Ademais, o Senado americano abriu investigação sobre o contrato entre a Fifa e o Kennedy Center, local do sorteio, levantando acusações de nepotismo e possíveis irregularidades, já que muitos cargos-chave hoje são ocupados por aliados do governo Trump. Uma nova polêmica prevista para o evento é a entrega do “Prêmio da Paz da Fifa”, com expectativa de que Trump possa ser homenageado pelo papel na organização do torneio, apesar das críticas de especialistas e de parte da própria comunidade esportiva.
Impacto interno: popularidade, economia e estratégia para 2026
Apesar da atenção internacional, Trump enfrenta desafios internos: seu índice de desaprovação supera 55%, puxado principalmente pela insatisfação popular com a inflação e medidas econômicas consideradas impopulares. Pesquisas indicam que 59% dos americanos veem o presidente como o principal responsável pelo aumento dos preços em 2025, o que pode impactar a composição do Congresso nas eleições de 2026 e, consequentemente, a governabilidade da próxima metade de seu segundo mandato.
Nesse cenário, eventos como a Copa se tornam palco para a promoção da imagem do presidente, que utiliza anúncios e críticas a administrações democratas nas cidades-sede para fortalecer discursos e conquistar apoio, sobretudo em estados-chave. A proximidade com a Fifa, segundo analistas, é importante para consolidar a reputação internacional dos EUA e posicionar Trump como liderança global.
Imprevisibilidade e riscos: o que esperar da Copa do Mundo em território norte-americano
A relação história da Fifa com líderes mundialmente polêmicos – de Vladimir Putin, no Mundial de 2018, ao emir do Catar em 2022 – nunca foi tão testada quanto agora. Especialistas alertam para o ineditismo do atual cenário: “Trump combina personalização extrema da política externa, volatilidade comunicacional e uso do espetáculo. Isso o torna mais imprevisível do que qualquer outro presidente com quem a Fifa negociou”, destacou Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas (FGV) e Universidade Harvard.
Medidas restritivas em imigração e questões de segurança podem impactar a adesão de delegações e torcedores do exterior. Ao mesmo tempo, a Fifa aposta no potencial econômico do torneio, estimando impacto de US$ 30,5 bilhões só nos EUA. As vendas de ingressos, contudo, estão aquém do esperado – menos de dois milhões até novembro de 2024.
Além disso, há atritos específicos com cidades como Los Angeles, cenário de recentes protestos contra o governo federal e de conflitos partidários que podem influenciar a experiência dos visitantes e o clima nos grandes jogos. Com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando, a mistura entre futebol e política promete se intensificar, tendo Donald Trump como figura central dentro e fora de campo.

