O Mundial sub-15 da Fifa começa neste sábado, 24 de outubro, em Baku, no Azerbaijão, com 189 seleções e partidas disputadas por equipes de oito jogadores. Organizado como um festival até 30 de outubro, o evento terá jogos de dois tempos de 20 minutos e quase mil partidas, em uma estrutura que permitirá até 20 confrontos simultâneos.
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Mundial sub-15 estreia com formato pensado para ampliar a disputa
A primeira edição do torneio apresenta uma mudança importante em relação às competições tradicionais de futebol de campo: cada lado terá oito atletas, em vez dos 11 habituais. A Fifa escolheu essa configuração para criar partidas mais velozes e intensas e, ao mesmo tempo, reduzir diferenças entre seleções com condições distintas de treinamento e desenvolvimento.
O formato foi definido pela equipe ligada a Arsène Wenger, diretor de desenvolvimento global do futebol da entidade. Em campo reduzido, os jogadores tendem a participar mais das ações, enquanto a diminuição do número de atletas altera a ocupação dos espaços e acelera as transições. A organização, porém, não divulgou no material de apresentação as dimensões exatas dos campos nem todos os detalhes das regras específicas.
Roberto Grassi, diretor de torneios de base da Fifa, descreveu o 8 contra 8 como uma forma de equilibrar as exigências físicas, técnicas e táticas. A proposta não elimina diferenças de qualidade entre países, mas busca oferecer um ambiente em que o preparo físico e a familiaridade com estruturas profissionais não sejam os únicos fatores determinantes para competir.
Esse ponto é relevante em uma faixa etária na qual os processos de formação variam muito. Algumas federações contam com centros de treinamento e calendários regulares; outras têm menos recursos para organizar viagens, torneios e sessões de alto rendimento. Um campo menor e equipes reduzidas podem facilitar a adaptação, embora não substituam investimentos contínuos em formação, treinadores e infraestrutura.
Quase mil partidas exigem uma operação fora do padrão
A dimensão do evento chama atenção: estão previstas quase mil partidas em menos de uma semana. Para absorver esse volume, a estrutura de Baku poderá receber até 20 jogos ao mesmo tempo, distribuídos por diferentes campos. Em vez de concentrar a experiência em poucos confrontos de grande porte, o festival amplia o número de equipes em atividade e oferece mais tempo de jogo a jovens de diferentes países.
O calendário acelerado também impõe desafios operacionais. Com partidas de 40 minutos, divididas em dois períodos de 20, a organização consegue encaixar mais confrontos ao longo do dia. Ainda assim, gerir deslocamentos, horários, recuperação e preparação de tantas delegações exige coordenação cuidadosa. Cada equipe poderá viajar com 14 jogadores e até seis integrantes de comissão ou estafe.
Os atletas precisam ter nascido em 2011 ou 2012. Esse recorte estabelece uma categoria de base específica, mas não significa que todos os participantes estejam no mesmo estágio de maturação física ou técnica. Em torneios sub-15, diferenças de desenvolvimento individual podem ser expressivas; por isso, avaliar o desempenho apenas pelo placar tende a oferecer uma leitura incompleta do potencial dos jovens.
Para a Fifa, o objetivo central é permitir que países que encontram barreiras para chegar a torneios mundiais oficiais tenham uma oportunidade de disputar jogos internacionais. A competição cria contato com estilos diferentes e oferece aos atletas uma referência concreta sobre o nível de outras seleções. Esse intercâmbio pode ser valioso, desde que seja acompanhado por um ambiente apropriado para a idade e por critérios que priorizem a formação.
Mundial sub-15 também testa uma nova lógica de desenvolvimento
O torneio não deve ser entendido apenas como uma versão menor de uma Copa do Mundo adulta. O formato de festival e a quantidade de participantes apontam para outra prioridade: ampliar o acesso à experiência internacional, mesmo para federações que raramente conseguem disputar as principais competições de base. A Fifa afirma que a iniciativa pretende inspirar novas gerações e criar oportunidades competitivas para essas nações.
O ganho possível vai além de observar adversários. Em uma semana de competição, jogadores e comissões técnicas precisam lidar com preparação, convivência, disciplina de horários e adaptação a rotinas coletivas. São aspectos formativos citados também pelo técnico brasileiro sub-15, Guilherme Dalla Dea, que destacou a responsabilidade de representar o país e a convivência com atletas de diferentes lugares.
Na preparação brasileira, segundo o treinador, foram realizadas sete sessões de treinamento em cinco dias. A Confederação Brasileira de Futebol adaptou campos da Granja Comary ao tamanho previsto para o torneio no Azerbaijão. O ajuste permite que a equipe treine em condições mais próximas às que encontrará durante a competição, sobretudo na dinâmica de espaços e na intensidade das ações.
Dalla Dea também ressaltou o papel de Samir Xaud, presidente da CBF, e de Branco, coordenador geral das categorias de base, na organização das condições de preparação. O treinador, campeão da Copa do Mundo sub-17 em 2019, apontou que a rotina de horários, alimentação e respeito aos demais atletas faz parte do processo de formação, além do trabalho com bola.
Essa abordagem ajuda a entender por que a Fifa escolheu um formato compacto. A redução de atletas não é apenas uma alteração numérica: muda a frequência de participação de cada jogador e a maneira como o grupo precisa defender e atacar. Em tese, há menos espaço para alguém permanecer distante do jogo por longos períodos. O resultado real, contudo, dependerá de como as equipes interpretarem as regras e organizarem seus atletas.
O calendário aponta para novas competições de base
A estreia masculina abre caminho para outras edições. A previsão informada pela Fifa é realizar um torneio dedicado ao futebol feminino no próximo ano e, a partir de 2028, promover competições para ambos os gêneros. A sequência indica que a entidade pretende transformar a iniciativa em uma plataforma recorrente, e não em um evento isolado.
O movimento se encaixa em uma agenda mais ampla de expansão de competições internacionais, embora cada projeto tenha objetivos e formatos próprios. A Fifa também confirmou uma Copa de Clubes Feminina para 2028, outra iniciativa que amplia o espaço de torneios globais no futebol feminino. Para a base, a questão decisiva será garantir que a expansão venha acompanhada de oportunidades regulares, e não apenas de uma semana de exposição.
Na dimensão institucional, a escolha de novos formatos e calendários ocorre em meio a debates sobre as prioridades da entidade e a condução do futebol internacional. A mudança de posição da Confederação Asiática de Futebol sobre a reeleição de Infantino é um exemplo das discussões de governança que também atravessam a Fifa, ainda que não determine as regras ou o funcionamento desta competição juvenil.
Para as seleções participantes, o desafio imediato será transformar a oportunidade em aprendizado competitivo. A quantidade de jogos pode ampliar o contato internacional, mas também exige atenção à recuperação física e à gestão dos minutos de atletas tão jovens. O formato curto reduz a duração de cada partida; a sequência intensa, por outro lado, torna o planejamento de cada delegação especialmente importante.
O impacto dependerá do que vier depois de Baku
A primeira edição será um teste prático para a proposta da Fifa: reunir 189 seleções, organizar quase mil partidas e oferecer confrontos em um formato mais acessível. O número de países envolvidos dá dimensão ao projeto, mas não basta para medir seu sucesso. A continuidade dos torneios, a qualidade da organização e a capacidade de criar caminhos reais para o desenvolvimento serão indicadores mais consistentes.
Também será necessário observar se o 8 contra 8 favorece partidas competitivas sem comprometer a segurança e o bem-estar dos atletas. O campo reduzido e os tempos curtos prometem intensidade; justamente por isso, descanso, hidratação, acompanhamento médico e gestão de carga precisam fazer parte da operação. A Fifa não divulgou, nas informações disponíveis, protocolos detalhados para esses pontos.
Em Baku, a nova Copa começa com uma missão clara: levar a experiência internacional a jovens que talvez não encontrem espaço em torneios mundiais convencionais. Se a Fifa mantiver a iniciativa e ampliar sua estrutura para as edições feminina e masculina, o evento poderá se tornar uma porta de entrada relevante para seleções de diferentes continentes. O primeiro sinal concreto será a capacidade de converter o festival em uma política duradoura de formação.

