A estreia no MMA profissional de Ulisses Silva de Melo acontece neste sábado, 24 de outubro, no Jungle Fight 156, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Aos 35 anos, o goiano enfrenta Felipe Alves, conhecido como Mão de Pedra, depois de superar anos de dependência química e viver nas ruas. A luta marca a realização de um sonho antigo e o início de uma nova etapa no esporte.
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Estreia no MMA chega depois de uma longa reconstrução
Antes de pisar em um cage como profissional, Ulisses conheceu a região da Cracolândia por uma realidade muito distante da carreira que agora começa. Entre 2016 e 2018, ele viveu nas ruas do centro paulistano e, em alguns períodos, dormiu perto de um hotel onde ficou hospedado durante a semana de sua estreia. A mudança de cenário dá à volta a São Paulo um significado particular para o lutador.
O atleta relatou que costumava descansar nas proximidades da praça Princesa Isabel e buscar abrigo ao redor do prédio. Naquela fase, o crack e a instabilidade nas ruas haviam afastado o goiano do objetivo que carregava desde a infância: tornar-se lutador. A luta deste sábado não apaga as dificuldades vividas, mas representa um passo concreto em direção a uma meta que ele não abandonou.
Ulisses contou que chegou a chorar enquanto mexia em uma lata de lixo e pensava no contraste entre o sonho de lutar e a situação em que se encontrava. Foi nesse período que conheceu o pastor Roberto Moura, responsável por uma casa de recuperação em Águas Lindas de Goiás. Ele permaneceu internado por um ano e dois meses e, depois, foi morar com o irmão em Anápolis.
A recuperação não seguiu uma linha sem interrupções. O próprio atleta reconhece que voltou a usar drogas e chegou a retornar às ruas. Essa informação é relevante para compreender a trajetória sem transformar um processo complexo em uma história simplificada de superação instantânea. Em seu relato, a interrupção do uso ocorreu após recaídas, e o retorno consistente aos treinos foi construído gradualmente.
Do retorno aos treinos à chance no Jungle Fight
Em 2020, Ulisses conheceu o professor de muay thai que o aproximou novamente das artes marciais. Desde então, alternou períodos de afastamento e retomada, até voltar a treinar com regularidade. Ele afirma que está há seis anos na luta, contando o percurso de preparação, e que o esporte e a religião tiveram papel importante em sua reorganização pessoal.
Antes de buscar espaço no MMA, o goiano conquistou títulos no muay thai e no jiu-jítsu. Essas experiências dão base para a transição, mas a estreia profissional reúne exigências próprias: além das habilidades de trocação e luta agarrada, o atleta precisa administrar ritmo, distância, defesa e tomada de decisão sob pressão. A primeira apresentação também será uma oportunidade de mostrar como esses elementos funcionam diante de um adversário profissional.
A vaga no Jungle Fight 156 veio após Ulisses participar de uma seletiva da organização, em março. Seu desempenho chamou a atenção e abriu caminho para a luta marcada cerca de seis meses depois. A oportunidade não significa que uma carreira esteja garantida, mas oferece uma plataforma de visibilidade em um dos eventos brasileiros de MMA com transmissão nacional.
O confronto será contra Felipe Alves, apelidado de Mão de Pedra, também estreante no MMA profissional. A luta está programada para o card do evento e aparece na categoria dos médios, com Ulisses pesando 83,5 quilos na pesagem. A estreia, portanto, será um teste competitivo contra outro atleta que também busca começar a construir seu histórico no esporte.
Uma estreia cercada por uma noite de decisões
O Jungle Fight 156 terá como atrações principais as finais do Fight do Milhão, torneio que coloca R$ 500 mil em disputa para cada vencedor. A programação reúne combates de diferentes categorias e dá ao evento um alcance maior do que o de uma estreia individual. A organização confirmou os duelos decisivos depois das encaradas entre os finalistas, como mostra o anúncio das finais do Fight do Milhão confirmadas.
Na decisão masculina, Fabrício Bakai enfrenta Ernane Pimenta. A trajetória de Pimenta também tem uma dimensão de perseverança, já que o atleta precisou lidar com lesão e dificuldades financeiras antes de chegar à final. Esse contexto está detalhado no relato sobre o caminho de Ernane Pimenta à final.
A final feminina coloca Bianca Sattelmayer diante de Nágila Goku. A TV Globo transmite as duas decisões ao vivo após o programa Altas Horas, enquanto o Combate e o sportv 3 exibem o Jungle Fight 156 na íntegra, a partir das 20h, pelo horário de Brasília. A transmissão amplia a exposição da noite e pode levar a estreia de Ulisses a espectadores que acompanham o evento pelas lutas principais.
O prêmio milionário das finais também ajuda a explicar a atenção em torno do card. Para os atletas que disputam a bolsa principal do torneio, o resultado pode representar uma mudança financeira imediata; para Ulisses, o foco é diferente: começar a carreira profissional e transformar a luta em uma possibilidade de trabalho no futuro. Os planos dos competidores para a premiação aparecem na reportagem sobre os planos dos finalistas para o prêmio.
O que a estreia no MMA representa para Ulisses
Atualmente, Ulisses vive em Pires do Rio, em Goiás, e concilia os treinos com o emprego de auxiliar de produção em uma indústria de alimentos. O trabalho é fisicamente exigente, segundo o próprio lutador, e a carreira esportiva ainda não substituiu sua fonte de renda. Por isso, a estreia deve ser entendida como uma porta de entrada possível, não como garantia de que ele passará imediatamente a viver do MMA.
Esse ponto torna o desafio prático especialmente concreto. Para avançar, será necessário manter uma rotina de preparação, buscar novas oportunidades e continuar competindo em um ambiente no qual resultados, saúde e regularidade influenciam a continuidade da carreira. Uma vitória pode ajudar a chamar atenção, mas uma única luta não define o futuro de um atleta nem elimina os obstáculos financeiros e pessoais que acompanham a vida profissional no esporte.
Ulisses diz que manteve o desejo de lutar mesmo nos períodos em que voltou a usar drogas ou se afastou do caminho que pretendia seguir. Agora, a primeira apresentação no Jungle Fight aproxima essa aspiração da realidade competitiva. O resultado contra Mão de Pedra será importante para o início de seu cartel profissional, mas a jornada até o cage já mostra o tamanho do caminho percorrido.
Uma nova etapa começa dentro do cage
Aos 35 anos, Ulisses não chega ao MMA profissional como alguém sem experiência esportiva: traz passagens por muay thai e jiu-jítsu, anos de treino e a classificação conquistada em uma seletiva. Ainda assim, estrear é uma etapa própria. O desempenho deste sábado mostrará como ele responde à pressão de uma luta oficial e poderá abrir novas possibilidades, sem antecipar resultados que só serão definidos no combate.
Para quem acompanha o Jungle Fight 156, a história do goiano acrescenta uma dimensão humana à programação, mas não substitui o que acontece no octógono. Ulisses terá de enfrentar Felipe Alves dentro das regras e das exigências técnicas do MMA. A recomendação é acompanhar a luta sem confundir uma trajetória de recuperação com uma promessa de vitória: o marco desta noite é a estreia profissional de um atleta que voltou a perseguir o sonho de infância.

