Leoas do Futuro é o projeto gratuito do Fortaleza que oferece aulas de futebol e apoio psicossocial a meninas de 6 a 17 anos em Maracanaú. A iniciativa atende estudantes de escolas públicas e transforma a rotina de famílias que percorrem longas distâncias para levar as filhas aos treinos, enquanto elas aprendem fundamentos do esporte e ganham espaço para perseguir seus próprios sonhos.
Fatos centrais da notícia
- O projeto disponibiliza 160 vagas gratuitas para meninas de 6 a 17 anos matriculadas em escolas públicas.
- As atividades ocorrem no Centro de Treinamento Ribamar Bezerra, em Maracanaú, com acompanhamento de profissionais, psicologia e assistência social.
- Famílias de diferentes municípios da região metropolitana organizam deslocamentos semanais para que as meninas participem das aulas.
Índice do Artigo
Leoas do Futuro transforma a paixão em oportunidade
O futebol chegou à vida de algumas participantes por meio de brincadeiras em casa, da influência de irmãos ou da convivência com pais que também jogavam. No projeto do Fortaleza, esse interesse encontra um espaço organizado: as meninas treinam, convivem em grupo e aprendem aspectos técnicos do esporte com profissionais do clube.
A proposta não se limita a formar atletas para competições. Segundo Erisson Matias, gerente das categorias de base do Fortaleza, o foco é oferecer uma oportunidade esportiva e social a garotas que gostam de futebol e querem praticar a atividade no contraturno escolar. A distinção é relevante: o projeto não apresenta a performance ou a seleção de futuras jogadoras como condição para participar.
O programa oferece 160 vagas gratuitas para meninas de 6 a 17 anos que estejam matriculadas em escolas públicas municipais ou estaduais. As turmas são organizadas nos períodos da manhã e da tarde, no Centro de Treinamento Ribamar Bezerra, em Maracanaú. Além das aulas, as participantes têm acesso a acompanhamento psicológico e assistência social.
Esse conjunto amplia o papel da escolinha. O treino ensina passes, condução de bola e outros fundamentos, mas a experiência também envolve disciplina, convivência e compromisso com uma atividade regular. O suporte social e psicológico, por sua vez, acrescenta uma dimensão de cuidado que não costuma estar presente em uma aula esportiva isolada.
O futebol de base também convive com outras camadas do ambiente profissional, como a observação de atletas e as decisões de mercado. Esse contraste aparece em notícias como a sondagem de clubes ingleses por Otávio: enquanto o mercado acompanha jogadores já inseridos no alto rendimento, iniciativas como as Leoas do Futuro ampliam o acesso de meninas ao esporte desde a formação inicial.
Leoas do Futuro muda a rotina de mães e filhas
Para Elivane da Silva, o envolvimento das filhas com o futebol cresceu dentro da própria família. O filho mais velho se interessou pelo esporte primeiro; depois, Gabriele, de 16 anos, passou a jogar, e Ester Isabele, de apenas nove, também quis participar. A mãe decidiu apoiar as duas, que treinam às terças e quintas-feiras no CT do Fortaleza.
Gabriele tem o objetivo de avançar para as categorias de base e disputar competições como o Campeonato Cearense. A irmã mais nova acompanha essa trajetória e encontra no projeto uma oportunidade de aprender junto a outras meninas. Para Elivane, apoiar as filhas significa respeitar um interesse que elas próprias manifestaram, sem transformar o futebol em uma obrigação ou promessa de carreira.
Outro exemplo é Jessyka Vitória, que começou a jogar ainda criança em partidas de travinha com o pai, Jefferson dos Santos. Aos sete anos, entrou em uma escolinha. Hoje, atua como zagueira e lateral-direita, posições diferentes da função de volante que o pai desempenhava. Ela sonha em se tornar jogadora profissional e cita Marta, Formiga e Millena Guedes entre as atletas que gostaria de encontrar em campo.
O caso de Jessyka mostra como o contato familiar pode abrir a porta, mas não define sozinho o percurso esportivo. A menina passa da brincadeira para a prática orientada e, com o treinamento, começa a construir referências próprias. Ter acesso contínuo a uma estrutura de formação ajuda a transformar o interesse inicial em uma atividade com rotina e aprendizado.
Para Natália Ribeiro, a participação das filhas gêmeas Nathally e Thallya, ambas de 11 anos, exige uma operação semanal. A família sai do bairro Lagoinha, no Eusébio, e percorre mais de 25 quilômetros até o centro de treinamento em Maracanaú. Nas terças e quintas, a mãe costuma deixar a casa às 7h30 para chegar aos treinos marcados para as 9h.
O trajeto pode levar mais de uma hora e é feito com ajuda de um amigo que dirige para a família ou por meio de carro por aplicativo. A distância expõe um obstáculo prático que não aparece na ficha técnica de nenhum projeto: uma vaga gratuita só se converte em oportunidade real quando a família consegue garantir transporte, tempo e disponibilidade para acompanhar a participante.
Natália conta que as filhas mantêm o entusiasmo também em casa, onde seguem brincando com a bola. A dedicação delas se torna parte do vínculo familiar e aproxima a mãe de uma lembrança própria: ela também jogava futebol em um campo de terra. Para essas famílias, portanto, o treino representa mais do que uma atividade semanal; é um compromisso compartilhado em torno de um interesse comum.
Uma iniciativa social, não uma promessa de carreira
O projeto teve início em 2021, mas ganhou forma e passou a funcionar efetivamente quatro anos depois, após uma parceria entre o Fortaleza e a Ambev. A iniciativa conta com recursos da Lei de Incentivo ao Esporte. Esse modelo de apoio permite estruturar uma oferta gratuita, mas também exige organização para manter profissionais, horários e acompanhamento de um público com diferentes idades.
A fala do gerente das categorias de base ajuda a esclarecer a finalidade do programa: trata-se de uma ação de responsabilidade social, não de uma peneira permanente voltada à formação de atletas de alto rendimento. Algumas participantes que passaram pelo projeto seguiram para clubes, mas esse desdobramento não deve ser confundido com uma garantia de contratação para todas as meninas.
Essa diferença é importante para que pais e participantes entendam o que a iniciativa oferece. O acesso ao futebol e ao acompanhamento é o objetivo central; uma eventual carreira profissional depende de outros fatores, como desenvolvimento técnico, oportunidades futuras, continuidade dos estudos e decisões dos próprios clubes. A proposta social pode abrir caminhos sem prometer um resultado que não está sob controle do projeto.
O contexto também favorece o interesse pelo futebol feminino. A expectativa pela Copa do Mundo Feminina no Brasil, prevista para 2027, aparece entre os elementos que alimentam os sonhos das meninas. Ver grandes jogadoras em evidência pode inspirar novas praticantes, mas a continuidade depende de estruturas locais que tornem possível treinar durante o ano, não apenas de momentos de grande exposição na mídia.
O Fortaleza conquistou o Campeonato Cearense Feminino em 2026, resultado que acrescenta visibilidade à modalidade no estado. Ainda assim, a competição profissional e a escolinha cumprem funções distintas: uma disputa títulos; a outra amplia o contato de crianças e adolescentes com o esporte. A existência das duas frentes contribui para que o futebol feminino seja observado tanto pelo desempenho das equipes quanto pelas oportunidades oferecidas às novas gerações.
O impacto depende de acesso e continuidade
Vagas gratuitas e acompanhamento especializado são pontos concretos, mas a distância até Maracanaú revela um limite que precisa ser considerado ao avaliar o alcance da iniciativa. Para algumas famílias, o transporte ocupa horas da semana e exige apoio de terceiros. A expansão de oportunidades no futebol feminino passa também por soluções práticas para que meninas de diferentes bairros consigam chegar às atividades com regularidade.
O debate sobre infraestrutura atravessa o futebol em diferentes níveis: do espaço de formação ao estádio que recebe uma partida importante. A discussão sobre a oferta do Maracanã ao Vasco para uma semifinal, por exemplo, mostra como a escolha de local e as condições de acesso também entram no planejamento do esporte profissional. Para as Leoas do Futuro, a questão mais imediata é garantir que a distância não interrompa a frequência das alunas.
O projeto não transforma automaticamente cada participante em atleta profissional, nem precisa fazê-lo para ter valor. Ao oferecer treino, apoio psicológico e assistência social, o Fortaleza cria um ambiente em que meninas podem aprender, desenvolver vínculos e decidir até onde querem levar sua relação com o futebol. Para as famílias interessadas, o passo mais prático é buscar os canais oficiais do clube e confirmar disponibilidade, critérios de matrícula e horários das turmas.

