Byanca Brasil, um dos maiores nomes do futebol feminino nacional, conhecida por sua liderança técnica e por ser a camisa 10 do Cruzeiro, alcançou feitos históricos na última temporada. Ela foi fundamental para a campanha que levou o clube à sua primeira final de Campeonato Brasileiro Feminino, sendo inclusive premiada como a melhor atacante da competição.
Contudo, por trás dos gols e das assistências que encantaram a torcida, a atleta enfrentava uma batalha silenciosa e dolorosa. Byanca Brasil teve de lidar com intensas crises de ansiedade e um diagnóstico de depressão, revelando a complexidade da saúde mental no esporte de alto rendimento.
Sua história se torna um importante alerta sobre como o sucesso profissional pode coexistir com profundos desafios pessoais, um tema cada vez mais relevante no cenário esportivo, conforme informações divulgadas pela ESPN.
A Batalha Invisível por Trás dos Gols e Liderança
Apesar de estar em campo e performando em alto nível, Byanca Brasil descreveu um sentimento de estranhamento consigo mesma. “Eu já estava vindo muito mal, psicologicamente, mas dentro de campo as coisas estavam acontecendo, só que fora dele eu não estava me reconhecendo, e nem dentro, porque eu não estava enxergando o que eu estava fazendo”, contou a jogadora.
Um dos momentos mais críticos ocorreu antes de uma partida importante contra o Palmeiras, quando Byanca teve uma crise de ansiedade no vestiário. A pressão era imensa, e ela sentia a responsabilidade de ser uma líder, o que a impedia de demonstrar sua vulnerabilidade.
Naquele período, a atacante já recebia acompanhamento psiquiátrico e utilizava medicações para controlar os transtornos de ansiedade. O clube, o técnico Jonas Urias e as companheiras estavam cientes de seu momento delicado, oferecendo suporte.
A ajuda de sua companheira Sochor foi crucial. “Ela já teve depressão, então ela me dava gelo durante o jogo pra eu ficar apertando e isso controlava a minha ansiedade. E foi um jogo que eu fui muito bem”, relatou Byanca. Naquela partida, o Cruzeiro venceu o Palmeiras por 3 a 1, com duas assistências da própria Byanca Brasil.
Apesar dos elogios e do desempenho em campo, a dor persistia. “Todo mundo me elogiando, eu entro no meu quarto e faço o quê? Só choro. Chamei duas amigas, ninguém entendia o que estava acontecendo comigo. Isso também aconteceu na final. Falei com o meu psiquiatra e ele diagnosticou a depressão”, explicou a atleta.
O Peso da Camisa 10 e a Pressão Externa
Maior artilheira da história do Campeonato Brasileiro Feminino, com 75 gols, Byanca Brasil chegou ao Cruzeiro em 2023 com a responsabilidade de vestir a camisa 10. Essa posição trouxe consigo uma carga de expectativas e uma pressão sem precedentes em sua carreira.
“Os dois últimos anos senti muito a pressão, eu me pressionei. Primeira vez vestindo a camisa 10, primeira vez tendo mais torcida presente, a cobrança foi muito maior”, afirmou a jogadora. Mesmo com a terapia, ela não conseguiu ignorar essa pressão, que se manifestava em tristeza e choro após os treinos.
A situação foi agravada pelo impacto das redes sociais. Byanca, que sempre foi muito ativa, começou a ser alvo de comentários negativos. “As pessoas ali acabaram com o meu mental, o hater veio forte e até então eu nunca tinha lidado com aquilo. Eu abria as redes sociais para ver isso e não sabia como sair”, desabafou.
O Apoio Essencial e a Decisão de se Afastar das Redes
A jornada de Byanca Brasil é um testemunho da importância do apoio. Sua esposa, sua psicóloga e suas companheiras de equipe foram pilares durante essa fase difícil. A presença dessas pessoas, inclusive na cerimônia do Bola de Prata, demonstra a rede de suporte que se formou ao redor da atleta.
Para priorizar sua saúde mental e seu desempenho em campo, Byanca tomou uma decisão drástica: vai se afastar das redes sociais. “É a coisa que eu mais gosto, mas eu vou me afastar. Se eu quero jogar em alto nível e jogar em paz, eu preciso me afastar das redes sociais”, declarou.
Um staff será responsável por gerenciar sua imagem online, permitindo que Byanca foque integralmente em seu tratamento e em sua carreira. Essa escolha reflete um compromisso consigo mesma e com seu bem-estar, um passo corajoso em um mundo cada vez mais conectado.
Uma Voz Pela Conscientização da Saúde Mental no Esporte
Com 80 jogos, 55 gols e 46 assistências pelo Cruzeiro, Byanca Brasil não quer que sua experiência seja apenas um capítulo pessoal. Ela deseja que sua história sirva de alerta e inspiração para outros atletas e profissionais que enfrentam desafios semelhantes.
“Eu aprendi muito com esse momento e quero passar a minha história para a frente, porque com certeza se eu tivesse escutado casos como o meu, eu teria me alertado antes. Então eu quero alertar o máximo de pessoas que eu puder, para que elas também tenham coragem de falar”, enfatizou.
A coragem de Byanca Brasil ao expor sua vulnerabilidade lança luz sobre a importância de discutir abertamente a saúde mental no esporte, quebrando estigmas e incentivando a busca por ajuda. Sua voz se soma a um movimento crescente que busca oferecer mais suporte e compreensão aos atletas, dentro e fora de campo.

