A virada do ano trouxe um cenário incomum para o futebol europeu, com a demissão quase simultânea de três treinadores de clubes gigantes: Xabi Alonso no Real Madrid, Enzo Maresca no Chelsea e Ruben Amorim no Manchester United. Em um período de apenas 12 dias, esses técnicos, antes considerados promessas em suas nomeações há menos de 18 meses, viram seus projetos serem interrompidos, levantando questionamentos sobre os verdadeiros motivos por trás de suas saídas.
Embora uma sequência de resultados negativos possa ter sido o estopim em alguns casos, a análise aprofundada revela que a principal questão em jogo foi muito além das quatro linhas: um surpreendente ‘choque de culturas’. A percepção de que esses treinadores não se encaixavam com o DNA ou a marca de seus respectivos clubes emergiu como o fator preponderante, desbancando o antigo clichê de que ‘os resultados mantêm seu emprego’.
A onda de demissões e a quebra de um paradigma
Os números, em muitos aspectos, eram sólidos. Enzo Maresca levou o Chelsea da sexta para a quarta posição em sua primeira temporada, conquistou a Conference League e o Mundial de Clubes, deixando os Blues em quinto na Premier League. Ruben Amorim assumiu o Manchester United em 13º, levou-o à final da Europa League e o deixou em sexto. Xabi Alonso, por sua vez, manteve o Real Madrid na segunda colocação de La Liga após assumir um time que havia terminado em segundo no ano anterior e o levou à semifinal do Mundial de Clubes. Tais desempenhos, até pouco tempo atrás, seriam mais do que suficientes para garantir a continuidade em qualquer grande clube.
No entanto, a disposição dos clubes em arcar com os custos e a bagunça de uma demissão no meio da temporada, em busca de uma ‘solução’, aponta para uma mudança de prioridades. As substituições, em todos os casos, foram apostas de baixo risco, com a promoção de lendas do clube ou nomes com pouca experiência no comando de equipes principais, como Michael Carrick no United, Álvaro Arbeloa no Real Madrid e Liam Rosenior no Chelsea (via Strasbourg).
O ‘DNA do clube’ como fator decisivo
O cerne da questão residiu em uma ‘desconexão pessoal’ entre os treinadores e a direção dos clubes. Para os gigantes do futebol, que também funcionam como marcas globais e produtos a serem vendidos, não basta que um técnico atinja metas mínimas em campo; ele precisa corresponder ao modelo e à imagem, fazendo com que proprietários e torcedores se sintam alinhados com a direção da equipe.
No Chelsea, Maresca, apesar de ter inicialmente abraçado o modelo de desenvolvimento de jovens talentos, começou a sentir dificuldades em conciliar essa filosofia com a busca por resultados imediatos, culminando em um relacionamento deteriorado com a cúpula do clube. No Manchester United, Amorim, que representava uma grande mudança tática, fez declarações que soaram como críticas à estrutura do clube e, mais importante, suas equipes simplesmente não pareciam ter o ‘Jeito United’, o DNA que, embora difícil de definir, é facilmente perceptível pelos torcedores e pela diretoria.
Casos emblemáticos: Alonso, Maresca e Amorim em xeque
A situação de Xabi Alonso no Real Madrid é particularmente reveladora. O clube, que nos últimos 15 anos prosperou com ‘gestores de pessoas’ como Zidane, Ancelotti ou Mourinho, nomeou um treinador ‘sistemático’. Embora Alonso tenha sido um pilar do clube como jogador e compreendesse a dinâmica de um elenco repleto de superestrelas, ele tentou implementar o sistema que o levou ao sucesso no Bayer Leverkusen. O resultado foi uma equipe que, segundo críticos, ‘não tinha identidade’. A cultura do Real Madrid, onde a torcida pode vaiar mesmo em vitórias se não gostar do estilo de jogo, exigia mais do que apenas resultados – exigia uma ‘vibe’, um ‘ajuste’ que o sistema de Alonso não conseguiu entregar plenamente.
O futuro dos bancos: apostas de baixo risco e a busca por identidade
A mensagem é clara: o ajuste importa, a vibração importa, o plano importa. Clubes de elite buscam um treinador que não apenas entregue desempenho, mas que também encarne a essência da instituição. A marca precisa estar forte, e o ‘produto’ precisa ser vistoso. Com ou sem razão, Real Madrid, Chelsea e Manchester United sentiram que suas marcas não estavam suficientemente fortes ou que o produto não era atraente o suficiente sob o comando de seus antigos técnicos. Ações foram tomadas, e o ano de 2026 começa com esses clubes em busca de uma nova identidade, que alinhe resultados com a alma de suas respectivas instituições.

