Investigação policial detalha fluxo financeiro suspeito no núcleo familiar de Casares
Um inquérito policial, baseado em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), aponta para a existência de um “esquema financeiro atípico” nas contas do presidente do São Paulo, Julio Casares. A investigação, conduzida pelo delegado Tiago Fernando Correia, não se restringe apenas ao dirigente, mas também abrange o núcleo familiar, incluindo sua ex-esposa, Mara Casares, e a filha, Deborah de Melo Casares.
Pagamento de boletos da ex-esposa e “comunhão de interesses” sob escrutínio
Um dos pontos centrais da investigação é a constatação de que, mesmo após a dissolução da sociedade conjugal, a conta de Julio Casares quitou 104 boletos bancários de despesas de Mara Casares, totalizando mais de R$ 137 mil. Além disso, a análise revelou três operações de crédito relacionadas ao São Paulo Futebol Clube, nas quais Mara e o presidente aparecem como supostos avalistas de empréstimos que somam cerca de R$ 125 milhões. O delegado considera que essa situação exige “maior aprofundamento para verificar eventual confusão patrimonial”, sugerindo uma “comunhão de interesses econômicos e patrimoniais que permanece ativa e oculta”.
Depósitos abaixo do limite legal na conta da filha e “structuring”
A Polícia Civil também analisou a conta corrente de Deborah de Melo Casares, filha de Julio e Mara, no Banco Safra, no período de novembro de 2024 a janeiro de 2025. Foram identificadas “manobras financeiras de alta sofisticação para a dissimulação de valores”. Em 22 de novembro de 2024, Mara realizou um depósito de R$ 49.500,00 na conta da filha, um valor estrategicamente abaixo do limite de R$ 50 mil, a partir do qual as instituições financeiras são obrigadas a comunicar o Coaf. Essa prática, conhecida como structuring ou smurfing, é classificada pelo delegado como evidência de dolo e conhecimento dos mecanismos de controle.
Ação coordenada com empresa e pulverização de valores
A investigação aponta uma ação coordenada envolvendo a empresa Otto Estúdio de Beleza, da qual Deborah Casares é sócia. No mesmo dia em que a conta física recebia os depósitos, a conta jurídica também foi abastecida com dinheiro em espécie, configurando uma estratégia de pulverização de valores. Em 22 de novembro de 2024, enquanto Mara depositava R$ 49.500,00 na conta de Deborah, a empresa recebeu R$ 37.520,00 em espécie. Em 7 de janeiro de 2025, a conta física recebeu R$ 40.100,00, e a empresa mais R$ 30 mil em espécie. No total, o grupo familiar injetou R$ 157.120,00 em dinheiro vivo nas contas física e jurídica nesse período. Parte desses valores foi imediatamente transferida por PIX por Deborah para o Banco Bradesco, uma estratégia interpretada como layering para dificultar o rastreio.
Defesa de Casares alega origem lícita e pede detalhamento das investigações
Em nota, os advogados de Julio Casares, Daniel Bialski e Bruno Borragine, afirmaram que todas as movimentações financeiras do dirigente possuem origem lícita e legítima, com lastro compatível com sua capacidade financeira. Destacaram que Casares ocupou cargos de alta direção na iniciativa privada com boa remuneração antes de assumir a presidência do São Paulo. A defesa promete detalhar a origem dos recursos com provas, declarações e informações fiscais durante as investigações, contestando as ilações feitas sem acesso à integralidade do inquérito.
Saques milionários das contas do São Paulo também sob análise
Paralelamente, a Polícia Civil investiga 35 saques em dinheiro realizados nas contas do São Paulo entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, totalizando R$ 9,2 milhões. Em 2021, foram R$ 1,5 milhão em sete operações; em 2022, R$ 1,2 milhão em seis saques; em 2023, R$ 1,4 milhão em seis saques; em 2024, R$ 5,2 milhões em 11 saques; e em 2025, R$ 1,7 milhão em cinco saques. Inicialmente realizados por um funcionário do clube, os saques passaram a ser feitos por uma empresa de carro forte, o que a investigação considera uma possível estratégia para dificultar a identificação dos envolvidos.

