Adeus às piscinas e reflexões de um campeão
Longe das piscinas desde 2021, Daniel Dias, o maior medalhista paralímpico da história do Brasil, abriu o coração em uma entrevista reveladora. O atleta, que coleciona 27 medalhas em Jogos Paralímpicos (14 de ouro, 7 de prata e 6 de bronze), compartilhou a mágoa sentida com a reclassificação de sua categoria em 2019, que o forçou a mudar da classe S5 para a S6. Essa mudança, segundo ele, foi um dos fatores que o impulsionaram a encerrar a carreira, pois sentiu que não se despediu da forma que gostaria.
“Eu já estava decidido a parar. Apósa os Jogos de 2016, no Rio, eu já tinha começado a pensar”, confessou Dias, explicando que a polêmica reclassificação em 2019 intensificou sua decisão. “Negativamente foi muito ruim receber aquilo. […] Isso foi me magoando muito e, ao mesmo tempo, eu olhei para a minha carreira e vi que fui muito além do que eu imaginava.”
Bullying e preconceito: as batalhas fora da água
Daniel Dias também relatou as dificuldades enfrentadas desde a infância devido à sua deficiência física congênita nos membros superiores e na perna direita. Ele sofreu bullying e presenciou olhares de reprovação, além de ter sido barrado em um local público por um segurança ao tentar entrar com sua prótese. “Quando criança, eu sofria muito preconceito, o chamado bullying hoje. Falo sobre isso nas palestras. O quanto machuca e tem que ser banido, evitado, o quanto isso tem que ser falado”, desabafou.
O atleta destacou a importância de “sorrir para a vida” como sua principal arma contra o preconceito. “Para deixar o processo mais leve, para deixar a vida mais leve. A vida tem os seus desafios, não são todos os dias que a gente está motivado, que eu acordo pronto para o treino, não são todos os dias que eu acordo e dou um sorriso. Mas são todos os dias que eu posso escolher e trazer o sentimento que o sorriso pode trazer”, afirmou.
A jornada além das medalhas
Ao refletir sobre sua trajetória, Daniel Dias expressou gratidão por ter ido “muito além do que imaginava”. Ele relembrou o sonho inicial de apenas participar de um Campeonato Mundial e uma Paralimpíada, e como a natação se tornou seu habitat. A primeira medalha paralímpica de ouro, conquistada em Pequim 2008 com recorde mundial, é especialmente marcante para ele, simbolizando a realização de um sonho e o início de uma carreira vitoriosa.
O momento mais especial, no entanto, foi nos Jogos do Rio 2016, quando nadou nove provas e conquistou nove medalhas, tornando-se o maior atleta masculino medalhista do Brasil, com a família presente. “Eu sentia, da água, a vibração. Quando eu entrava na água, parecia que a água estava vibrando”, recordou.
Legado e futuro
Atualmente, Daniel Dias dedica-se ao Instituto Daniel Dias, um projeto social que visa fomentar o esporte paralímpico e a inclusão de crianças e adolescentes. Ele acredita que projetos como esse são essenciais para atrair investimentos e dar visibilidade ao movimento. “O futuro que eu vejo é focado no instituto, de impactar mais vidas, trabalhar a inclusão e de se tornar um grande exemplo de inclusão”, declarou.
Sobre a renovação da natação paralímpica brasileira, Dias elogiou nomes como Gabriel Bandeira e Carol Santiago, reconhecendo a evolução do esporte para o alto rendimento. Ele encoraja os novos atletas a acreditarem em si mesmos e a perseguirem seus sonhos, reforçando que o sorriso e a resiliência são escolhas fundamentais para superar os desafios.

