Um Ensaio no Campo de Jogo
Em janeiro de 1996, o Londrina Esporte Clube, um clube com tradição no futebol paranaense, surpreendeu o país ao anunciar um novo comandante: Nuno Leal Maia. Para muitos, o ator era conhecido por personagens marcantes em novelas como ‘A Gata Comeu’ e ‘Malhação’, mas ele também trazia consigo um amor antigo pelo futebol. Sua chegada ao time, conhecido como Tubarão, marcou um capítulo inusitado em sua multifacetada carreira.
“Tinha muita gente que tinha preconceito, claro. Um ator dirigindo o time. Era meio estranho para a cabeça das pessoas entender isso”, relembrou Nuno Leal Maia em entrevista ao ge. A dicotomia entre o universo artístico e o esportivo gerou curiosidade e ceticismo, mas Nuno estava determinado a mostrar que sua paixão pelo futebol ia além das telas.
Do Estrelato à Lateral do Campo
Nuno Leal Maia nunca escondeu sua ligação com o futebol. Antes de se dedicar integralmente à atuação, ele chegou a tentar a carreira de jogador nas categorias de base do Santos, seu time de coração. Apesar de ter optado pelo teatro e pela televisão, a bola continuou a rolar em sua vida. Nas décadas de 1980 e 1990, ele se destacou no time dos artistas, um celeiro de talentos que reunia atores e ex-jogadores renomados, como Paulo Cezar Caju e Adílio.
Nessa equipe, Nuno atuava como cabeça de área e, a partir de sua liderança em campo, começou a vislumbrar a possibilidade de se tornar treinador. “Eu jogava com o Paulo César no meio e comandava o time. Eles tinham mais ou menos um respeito de treinador. Não era o treinador, mas a gente fazia como se fosse”, explicou.
Primeiros Passos e Desafios no Futebol Brasileiro
A transição para o banco de reservas se concretizou em 1993, no comando do São Cristóvão. A passagem, no entanto, foi breve e marcada por dificuldades administrativas, com jogadores sendo frequentemente negociados com clubes maiores. Logo depois, em 1994, Nuno assumiu o Botafogo-PB, mas um desentendimento com a diretoria sobre a escalação de um jogador o levou a pedir demissão.
“Você escala o time, então”, disse Nuno, demonstrando sua firmeza em relação à disciplina e ao planejamento tático, mesmo diante das pressões. Essa experiência, embora frustrante, moldou sua visão sobre os bastidores do futebol.
O Fenômeno Nuno Leal Maia no Londrina
A chegada de Nuno Leal Maia ao Londrina foi, em grande parte, uma estratégia de marketing. O então presidente Marcelo Caldarelli, que assumiu o clube endividado, buscou visibilidade nacional. A patrocinadora master, uma agência de modelos, viu em Nuno o nome ideal para atrair a mídia. Enquanto gravava a novela ‘Histórias de Amor’, Nuno dividia seu tempo entre os estúdios e o campo, muitas vezes recebendo orientações por telefone, o que ele mesmo admitiu ser um desafio.
“Todo mundo falava ‘treinador por telefone’, é evidente que não dava para treinar time algum por telefone. A gente estava querendo fazer um trabalho sério, só que encontrava muita resistência, principalmente da parte física”, comentou. Para auxiliá-lo, foi escalado outro ator, Romeu Evaristo, o Saci-Pererê do ‘Sítio do Picapau Amarelo’, formando uma dupla inusitada que divertiu e surpreendeu os jogadores.
A presença de Nuno Leal Maia gerou um alvoroço na cidade. Treinos e jogos atraíam multidões, compostas tanto por fãs do ator quanto por críticos de sua atuação como técnico. Os hotéis onde a equipe se hospedava eram cercados por admiradores em busca de autógrafos, e os jogos eram acompanhados por uma atmosfera eletrizante, com torcedores exaltados, o que exigia grande paciência do ator-treinador.
Um Legado Curto, Mas Positivo
Apesar dos desafios, a passagem de Nuno Leal Maia pelo Londrina foi notavelmente positiva. Em nove jogos, o time obteve cinco vitórias, três empates e apenas uma derrota, com um início de campanha invicto que só foi igualado trinta anos depois. Nuno pregava um “futebol arte”, inspirado no Santos de Pelé e na seleção de 1970, buscando um jogo envolvente e técnico.
No entanto, a saída do principal patrocinador impediu a continuidade do trabalho. Sem recursos para arcar com os custos de Nuno, o clube o dispensou. Após o Londrina, Nuno ainda teve uma breve passagem pelo Matsubara, mas a decepção com a falta de apoio e as dificuldades administrativas o fizeram retornar definitivamente à sua carreira de ator. Hoje, aos 77 anos, Nuno Leal Maia relembra sua experiência no futebol com carinho, considerando-a uma fase valiosa e positiva de sua vida, mesmo com os percalços.

