O carioca Edson Tavares, de 69 anos, vibrou em sua casa no Rio de Janeiro com a classificação do Haiti para a Copa do Mundo de 2026. O treinador teve uma passagem marcante pelo país caribenho em 2010, quando assumiu a seleção com a missão de reconstruí-la após o devastador terremoto que atingiu a capital Porto Príncipe em janeiro daquele ano. Mesmo sabendo das dificuldades de o Haiti ir longe na competição, Tavares torce para que a simples participação possa trazer um alento em meio a um cenário de extrema pobreza, violência e caos político.
Um recomeço em meio à destruição
“Eu fiquei muito gratificado (com a classificação para a Copa). Quando eu cheguei, estava tudo destruído. O avião teve de pousar em uma avenida, não tinha aeroporto. O Haiti é um país que carece de amor, carece tanto de sorriso. Os caras estão felizes. O povo carece dessa alegria”, comentou Tavares em entrevista ao ge. O treinador, que já rodou o mundo comandando clubes e seleções em diversos países, encarou o desafio no Haiti como algo especial. Na época, a infraestrutura era precária e o país vivia um momento dramático.
A busca por talentos e o reencontro com as origens
Para remontar a seleção, Edson Tavares realizou uma verdadeira caça ao tesouro. Ele passou 45 dias na Europa buscando haitianos e descendentes que aceitassem o desafio de defender o país. “Fui a vários países para convencer os caras a defender a seleção, de todos com quem eu conversei, só um não aceitou, todos os outros toparam. A França tinha muitos haitianos. Também encontrei jogador na Argentina, na Espanha, Itália, Alemanha, Irlanda, em todo lugar tinha um haitiano ou um descendente”, relembrou. Essa iniciativa não apenas fortaleceu a equipe, mas também permitiu que muitos jogadores se reconectassem com suas origens, em alguns casos até reencontrando pais biológicos e resgatando o orgulho de sua herança haitiana.
Haiti na Copa: um reflexo da luta do país
A seleção haitiana sempre refletiu as dificuldades enfrentadas pelo país. O melhor momento do futebol haitiano remonta à década de 70, com o título da Concacaf Championship em 1973 e a classificação para a Copa do Mundo de 1974. Em 2010, a tarefa de Tavares foi ainda mais árdua. Atualmente, o Haiti é governado por um Conselho de Transição desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021 e enfrenta grave instabilidade política, com grande parte da capital controlada por grupos criminosos. A classificação para a Copa de 2026, que será sediada por Estados Unidos, México e Canadá, é vista como um marco significativo, especialmente porque os três países anfitriões estão automaticamente classificados, abrindo um caminho mais acessível para outras nações da Concacaf.
Um coração dividido na Copa
Edson Tavares sente uma emoção especial por ver o Haiti, seleção que ajudou a reconstruir, no mesmo grupo do Brasil na Copa de 2026. O treinador, no entanto, garante que seu coração permanecerá verde e amarelo. “Não é que tenha uma divisão. Eu tenho o lado humano e o lado profissional. E no lado pessoal, eu vou sempre torcer para o Brasil. Esperando que o Haiti se classifique também, quem sabe como melhor terceiro”, declarou, demonstrando o orgulho e o carinho que mantém pelo país que um dia chamou de sua missão.

