O presidente do São Paulo Futebol Clube, Julio Casares, encontra-se em uma situação delicada, não apenas pelas investigações policiais de corrupção que podem levar a um pedido de impeachment nesta sexta-feira (16), mas também por uma série de dívidas com a Receita Federal e o arrolamento de parte significativa de seu patrimônio.
O próprio dirigente admitiu à ESPN débitos fiscais, enviando um extrato de parcelamento que mostrava uma dívida total de R$ 175.025,83, com juros, e um saldo devedor atual de R$ 115.438,56. As dificuldades com o órgão federal teriam começado em maio de 2023, intensificando-se no final de 2024 com diversos arrolamentos nos bens do cartola. O processo originário corre em sigilo.
Patrimônio Arrolado: De Imóveis a Empresas Familiares
A Receita Federal tem listado bens de Casares para garantir o pagamento de suas dívidas. A reportagem teve acesso ao patrimônio imobiliário e empresas em nome do presidente e seus parentes próximos, constatando que pelo menos oito imóveis de Casares estão com registros de arrolamento em suas matrículas. Cinco desses imóveis estão localizados na cidade de São Paulo, incluindo dois na Avenida Paulista, uma área nobre da capital. Outros bens arrolados incluem um apartamento na Praia Grande (SP), um sítio em Porto Feliz (SP) e um terreno em Jundiaí (SP).
O arrolamento de bens é um procedimento administrativo ou judicial que lista e protege o patrimônio de um devedor com débitos fiscais, impedindo que ele se desfaça desses bens para garantir o pagamento da dívida.
Empresas da Família e o Cerco das Investigações
Não são apenas os imóveis de Casares que estão na mira do governo. Empresas ligadas a ele e seus familiares também sofreram arrolamentos. É o caso do Otto Estúdio de Beleza, de Mara Casares, ex-mulher do dirigente. Mara também está envolvida nas investigações da Polícia Federal por lavagem de dinheiro no clube. O registro da Receita, com uma dívida avaliada em R$ 94 mil, aparece junto à Junta Comercial de São Paulo e foi determinado pela Delegacia Federal do Brasil em São José dos Campos em novembro de 2024, referente ao contribuinte Julio Casares.
A filha de Julio Casares, Deborah, abriu uma empresa de beleza no mesmo local do Otto no final do ano passado. As investigações da Polícia Civil apontam que o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou, na mesma época do arrolamento de bens, operações atípicas nas contas do salão e de Deborah. Depósitos de Mara para a filha, como R$ 49.500 em 22 de novembro e R$ 40.100 em 7 de janeiro de 2025, foram considerados “estratégicos” pelo inquérito policial para evitar comunicação ao Coaf.
Outra empresa de Julio Casares, a JC TV Consultoria, possui um registro de dívida ativa da União no valor de R$ 53.457,43, além de um débito protestado em cartório de R$ 43.242,78. O próprio presidente tem um protesto em seu nome de R$ 8.512,32, e Mara Casares, de R$ 593,52. Os filhos do dirigente, Julinho, também têm empresas com débitos e protestos registrados.
Depósitos em Dinheiro e Suspeitas de Lavagem
As investigações da Polícia Civil de São Paulo revelam que Julio Casares recebeu R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro em sua conta corrente entre janeiro de 2023 e maio de 2025. Relatórios de análise financeira do Coaf indicam que esse valor corresponde a quase metade da renda do dirigente no período, enquanto seus salários do São Paulo representam apenas 19,3% de toda a movimentação. A polícia considera a movimentação “atípica”.
A Defesa do Presidente e a Análise de Especialistas
Por meio da assessoria do clube, Casares afirmou que o arrolamento de bens “refere-se a garantias pessoais para o cumprimento do parcelamento de toda a dívida de tributos federais que o clube possui”, sendo necessário devido à sua condição de gestor administrador. Ele também desconhece protestos em seu nome e nega ter dívidas pessoais.
Os advogados de Casares, Daniel Bialski e Bruno Borragine, declaram que a filha Deborah não é investigada e que os valores depositados em sua conta são fruto de economias e investimentos familiares anteriores à presidência do São Paulo, não tendo relação com valores do clube. A defesa ainda ressalta que as movimentações financeiras de Julio possuem origem lícita e compatível com sua capacidade financeira pré-presidência, prometendo detalhar e esclarecer tudo no curso das investigações.
No entanto, a alegação de Casares sobre o arrolamento foi contestada por Anderson Real, advogado e professor de Direito. “A dívida deve ser na pessoa física dele, e o fato de ele ser presidente do São Paulo não se confunde com as dívidas pessoais perante a Receita Federal. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, não faz sentido nenhum”, explicou Real.
O especialista alertou para a gravidade da situação: “A Receita Federal, quando toma uma atitude de arrolar os bens da pessoa, demonstra que o contribuinte tem altos valores em débito. No presente caso, há uma nítida confusão patrimonial dos bens familiares, podendo configurar fraude, tanto na esfera administrativa, como na esfera criminal, podendo evoluir para o crime de lavagem de dinheiro ou ocultação de bens.” Real concluiu que, em crimes de lavagem, cabe aos acusados a comprovação da origem lícita dos bens, sob pena de sequestro.

