Primeiro tetracampeão brasileiro da Libertadores: como o Flamengo mudou a imagem no continente e se tornou o novo bicho‑papão
Do longo histórico de decepções às glórias recentes: Flamengo conquistou seu quarto título continental e virou referência de organização e força na América do Sul
Há menos de uma década, ver o Flamengo na Libertadores frequentemente significava risco de tropeço e episódios vergonhosos. Hoje, com o título que completou a quarta taça do clube na competição, o Rubro‑Negro passou a integrar o rol de temidos “bicho‑papão” do continente — rótulo que já coube, no passado, a times como Boca Juniors, Independiente e Peñarol.
O legado de erros e memórias dolorosas
Entre 1982 e 2018, o clube disputou apenas 13 das 37 edições da Libertadores. Nas campanhas daquela fase, o Flamengo raramente passou ileso: o posto mais alto foram duas semifinais na década de 1980 (1982 e 1984), e em cinco participações o time sequer superou a fase de grupos (1983, 2002, 2012, 2014 e 2017). A sequência deu margem a episódios que se tornaram piada entre rivais e marcas da autocrítica da torcida.
Algumas eliminações ficaram marcadas: a derrota para o América‑MEX dentro do Maracanã, após uma vitória fora por 4 a 2 em outro confronto; o episódio que transformou Léo Moura em meme, quando resultados paralelos no fim de uma rodada tiraram a equipe da classificação; e partidas como o “baile” da Universidad de Chile, o revés para o León em 2014 e a virada do San Lorenzo em 2017. Essas noites ajudaram a moldar a imagem de um clube que, para muitos, não era confiável nas decisões continentais.
A virada a partir de 2019
A mudança começou a se consolidar após uma reestruturação financeira iniciada no começo da década. Com gestão mais organizada e alívio das dívidas, o clube passou a atrair investimentos e contratações de alto nível. Desde 2019, o Flamengo disputou quatro finais da Libertadores e conquistou três títulos nesse período — alcançando o marco de tetracampeão continental entre 1981, 2019, 2022 e 2025.
Jogadores e ex‑atletas ressaltam que a transformação não foi obra do acaso. Em depoimento recente, Filipe Luís relacionou o novo patamar do clube a anos de planejamento e recuperação financeira, citando estrutura, elenco e logística como fatores que permitem lutar por títulos, ainda que não garantam vitórias automáticas.
Números e comparação com os grandes da América
Com quatro taças, o Flamengo se aproxima dos maiores vencedores da Libertadores, mas ainda fica atrás de clubes históricos: Independiente (7 títulos), Boca Juniors (6) e Peñarol (5). A sequência de sucesso recente recolocou o clube entre as maiores forças do continente e fez jornais estrangeiros passarem a comparar o time a esquemas europeus, pelo investimento e pela constância.
Além do total de títulos, a regularidade tem sido um marco: quem há uma década via o Flamengo como ausente da competição, hoje enxerga o clube como presença fixa. Em 2026, o Rubro‑Negro completará 10 participações consecutivas na Libertadores, um período que salta aos olhos considerando o hiato anterior de dez anos fora do torneio.
O que faz do Flamengo o novo bicho‑papão?
- Reestruturação financeira e gestão: estabilidade que possibilitou contratações e planejamento de longo prazo.
- Qualidade do elenco: material humano capaz de decidir partidas em estádios e situações adversas.
- Experiência em decisões: quatro finais em seis anos traduzem maturidade competitiva.
- Imagem continental: respeito (e medo) da imprensa e torcedores rivais, que hoje rotulam o clube como um dos favoritos em qualquer edição.
Historicamente, a Libertadores teve seus “bicho‑papões” — Peñarol nos anos 60, Estudiantes e Independiente nas décadas seguintes, Boca em ciclos distintos e até o São Paulo nos anos 90. Hoje, o Flamengo entra nessa conversa não apenas pelo número de títulos, mas pela constância recente e pelo peso simbólico de ser o primeiro clube brasileiro a atingir quatro conquistas na era moderna da competição.
Resta agora ao Rubro‑Negro manter o que construiu: sustentabilidade financeira, planejamento técnico e capacidade de se renovar sem perder competitividade. Se conseguir, a tendência é que o clube continue a figurar entre os nomes mais temidos da América do Sul por muitos anos.
Participações do Flamengo na Libertadores (resumo)
- 1981 – Campeão
- 1982 – Semifinal
- 1983 – Fase de grupos
- 1984 – Semifinal
- 1991 – Quartas de final
- 1993 – Quartas de final
- 2002 – Fase de grupos
- 2007 – Oitavas de final
- 2008 – Oitavas de final
- 2010 – Quartas de final
- 2012 – Fase de grupos
- 2014 – Fase de grupos
- 2017 – Fase de grupos
- 2018 – Oitavas de final
- 2019 – Campeão
- 2020 – Oitavas de final
- 2021 – Vice‑campeão
- 2022 – Campeão
- 2023 – Oitavas de final
- 2024 – Quartas de final
- 2025 – Campeão
Com esse histórico recente, o Flamengo já não é mais apenas um candidato — é referência. A expectativa de torcedores e analistas é ver se o clube conseguirá transformar a atual hegemonia em legado duradouro na Libertadores.

