A Supercopa do Brasil é mais do que um embate por um troféu; é um palco que expõe as nuances do futebol brasileiro, da tática à gestão, passando pela sempre polêmica arbitragem. A recente edição, que coroou o Corinthians campeão sobre o Flamengo, não foi exceção, deixando um rastro de dez considerações essenciais para análise.
A Vingança Tática de Dorival e o Contexto Rubro-Negro
O técnico Dorival Júnior, outrora alvo de críticas em momentos turbulentos do Corinthians, emergiu como o grande estrategista da final. Seu plano para neutralizar o Flamengo, focado na vigilância aos criadores e na pressão coordenada, foi executado com maestria pelos jogadores, pavimentando o caminho para o bicampeonato. Em contraste, as três derrotas consecutivas do Flamengo, incluindo a da Supercopa, devem ser vistas sob a ótica da fase inicial de preparação. Times com o estilo de jogo do Rubro-Negro naturalmente encontram mais dificuldades para afinar seus mecanismos coletivos no começo da temporada, um fator que não pode ser ignorado na avaliação de seu desempenho.
Arbitragem em Xeque: A Expulsão de Carrascal
A expulsão de Carrascal, do Flamengo, foi um momento-chave da partida. O cartão vermelho, indiscutivelmente justo pela imprudência do jogador, gerou controvérsia pela forma como foi conduzido. O árbitro Rafael Klein, embora agindo dentro da regra ao esperar a análise do VAR para só então expulsar o atleta na volta para o segundo tempo, privou as comissões técnicas de planejar a etapa final com antecedência, gerando um risco desnecessário de confusão no reinício do jogo. A arbitragem deve ser eficiente e discreta, e essa decisão, apesar de regulamentar, foi imprudente e prejudicial ao andamento da partida.
O Apagão do VAR: Uma Falha Inadmissível
O ponto mais grave, contudo, foi o apagão que impediu o VAR de analisar um possível gol legal do Corinthians. Segundo a CBF, uma queda de energia no Estádio Mané Garrincha levou o sistema de contingência (no-break) a manter a operação do VAR por apenas 15 minutos, tempo insuficiente para a revisão. A falha técnica em uma decisão de tamanha importância é inaceitável e levanta sérias questões sobre a infraestrutura e o protocolo de segurança dos equipamentos. Para dimensionar o impacto, basta imaginar o cenário de um gol de empate não perdido nos acréscimos, evidenciando como esse episódio poderia ter alterado o resultado final.
A Força da Fiel e os Desafios da Gestão
A forma como a torcida do Corinthians dominou o ambiente no Mané Garrincha é uma das explicações para a capacidade do clube de superar o caos administrativo em momentos cruciais. A “Fiel” é, talvez, a principal força que permite ao Corinthians transcender adversidades. No entanto, esse apoio incondicional não pode ser usado para validar gestões predatórias ou a ideia de que a competência e a honestidade administrativa são dispensáveis em clubes dessa grandeza. As diferentes perspectivas de presente e futuro entre o time campeão e o vice-campeão da Supercopa ilustram bem essa questão, com as entrevistas de jogadores como Memphis Depay, que buscam projetos sólidos, reforçando a importância de uma gestão eficaz.
A Supercopa do Brasil de 2023, assim, serve como um espelho multifacetado do futebol nacional, evidenciando a genialidade tática, a paixão das torcidas, mas também as fragilidades da arbitragem e a necessidade urgente de uma gestão esportiva mais profissional e transparente.

