Dez demissões em três meses: os técnicos não são os personagens centrais dessa estatística. A recente onda de mudanças no comando técnico de clubes brasileiros, que já atingiu a marca de dez treinadores dispensados em menos de três meses de temporada e com apenas dez rodadas do campeonato nacional completadas, levanta um questionamento crucial: será que o foco nas vítimas dessas dispensas — os próprios técnicos — nos impede de enxergar o verdadeiro cerne do problema?
É um roteiro previsível e quase automático. Assim que um treinador é anunciado como demitido, o debate público se volta para ele. A pergunta que ecoa é se a decisão foi acertada, justa. Essa análise, embora compreensível e natural, tende a isolar o indivíduo, transformando-o no principal responsável pelas crises, especialmente quando os resultados não aparecem e a pressão da torcida se intensifica.
Acontece que, ao avaliarmos cada caso isoladamente, quase sempre encontramos justificativas para a troca. Treinadores são frequentemente sacrificados em momentos de baixa performance, sequências de derrotas ou sob forte escrutínio popular. O exemplo de Dorival Júnior, que apesar de conquistas recentes foi dispensado pelo Corinthians após nove partidas sem vitória, ilustra essa dinâmica. É fácil rotulá-lo como o vilão da instabilidade.
A Estatística Alarmante: Um Sinal de Falhas Sistêmicas
No entanto, quando olhamos para o quadro geral, a situação se torna alarmante. Dez dispensas em um período tão curto e com tão poucas rodadas disputadas no campeonato nacional apontam para uma incapacidade endêmica no futebol brasileiro. Essa incapacidade reside na análise de processos de trabalho, na compreensão das fases naturais de um time e, fundamentalmente, na clareza dos critérios para a escolha de um comandante.
É difícil acreditar que, em apenas três meses, dez clubes tenham chegado à conclusão unânime de que suas escolhas iniciais para a temporada de 2026 foram equívocos tão graves. Seja na contratação de um técnico ou na manutenção de um trabalho iniciado no ano anterior, uma mudança tão abrupta sugere uma falha primária na tomada de decisão.
E o que é ainda mais preocupante é a raridade com que os dirigentes, responsáveis por essas contratações e demissões, sofrem consequências. Raramente um gestor perde o cargo ou admite publicamente um erro de avaliação que pode comprometer todo o departamento de futebol.
A frequência com que os técnicos caem no Brasil deixou de ser uma peculiaridade cultural ou folclórica. Dez demissões em dez rodadas, em menos de três meses, é um número que beira o ridículo e não é motivo de orgulho para ninguém. Este cenário, aliás, gera um efeito colateral perverso: após algumas rodadas, comparações estatísticas são feitas, e a conclusão usual é que o dirigente acertou. Afinal, o desempenho melhora com poucas vitórias após o ponto mais baixo.
Dez demissões em três meses: os técnicos não são os personagens centrais dessa estatística
Contudo, a história demonstra que essas variações de desempenho a curto prazo raramente se sustentam a longo prazo. O sistema atual falha em fornecer aos treinadores as ferramentas necessárias para superar fases difíceis, pois eles são dispensados antes mesmo de terem a chance de demonstrar sua capacidade de recuperação.
O ambiente do futebol cria uma contagem regressiva para o técnico pressionado, isolando-o. No momento da demissão, ele se torna o foco, o personagem central de sua própria queda, o bode expiatório para todos os problemas do clube. Mas a realidade é que o verdadeiro personagem central raramente é o treinador.
Quem São os Verdadeiros Vilões?
O verdadeiro culpado é, muitas vezes, o dirigente que contratou sem convicção, fadando o trabalho ao fracasso desde o início. Ou a gestão com dificuldades financeiras que impactam o time. Ou, ainda, as inevitáveis lesões e desfalques que afetam qualquer elenco.
Quando dez técnicos são demitidos em três meses, o personagem central não é o treinador. São aqueles que contratam sem planejamento, aqueles que demitem por impulso e aqueles que não admitem seus erros. É um ciclo vicioso que prejudica o desenvolvimento do futebol brasileiro.
Para entender melhor as complexidades envolvidas na contratação de técnicos e a pressão que sofrem, confira também nosso artigo sobre Fernando Diniz e sua aposta no Corinthians. Outro ponto de atenção é a influência externa nos jogos, como visto em polêmicas de arbitragem e situações envolvendo torcidas e o VAR.
A escolha de um treinador deve ser uma decisão estratégica, baseada em um conhecimento profundo do clube e de suas necessidades. O Botafogo, por exemplo, parece ter seguido essa linha ao escolher Franclim Carvalho, como explicado em nosso artigo. Em contraste, a gestão de um clube pode ser criticada por decisões que geram polêmica, como no caso de Leila Pereira, que rebateu críticas após um jogo.
Por fim, é fundamental que os clubes assumam a responsabilidade por suas decisões e aprendam com os erros. A punição de dirigentes por avaliações equivocadas, como a expulsão de Marcio Carlomagno da gestão do São Paulo, pode ser um caminho para maior profissionalização e estabilidade. Saiba mais sobre este caso.

