Daminhas da Bola recebeu representantes da Fifa e da CBF durante uma agenda técnica no Rio de Janeiro voltada à criação de uma estratégia para o futebol feminino brasileiro. A visita ao projeto social de Duque de Caxias integrou uma série de reuniões e observações de campo destinadas a reunir informações sobre a modalidade, da iniciação esportiva às competições profissionais.
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Daminhas da Bola entra na análise do futebol de base
Com atividades para meninas de 6 a 17 anos, o projeto atende atualmente cerca de 80 alunas na Baixada Fluminense. Mais de duas mil pessoas já passaram pela iniciativa, que combina prática esportiva e ações socioeducativas. A visita permitiu que dirigentes observassem de perto uma realidade que nem sempre aparece nos dados das competições de alto rendimento.
A agenda foi parte de um processo de trabalho entre a Fifa e a CBF para formular um documento com objetivos, indicadores e medidas voltados especificamente ao futebol feminino. A proposta, segundo as informações divulgadas sobre a iniciativa, é construir o planejamento a partir de consultas a diferentes grupos e da análise de experiências em campo, e não apenas de reuniões institucionais.
Ao receber representantes das entidades, o Daminhas da Bola colocou em evidência questões práticas da formação: acesso regular a atividades, disponibilidade de espaços, permanência das meninas no esporte e possibilidade de avançar para equipes competitivas. A existência de uma fila de espera, mencionada durante a visita, também sinaliza procura maior do que a capacidade atual de atendimento.
O tema do acesso aparece igualmente nas discussões sobre a próxima Copa do Mundo Feminina no país. A busca por ingressos acessíveis para a Copa Feminina trata de uma dimensão diferente, a participação do público, mas reforça que o desenvolvimento da modalidade envolve condições concretas para meninas, atletas e torcedores.
Plano da Fifa e da CBF depende de dados e escuta
Antes das visitas técnicas, a programação incluiu dois dias de workshops com integrantes das áreas diretiva e técnica da CBF. Dirigentes da Fifa conduziram as atividades, que reuniram profissionais de diferentes setores da entidade brasileira, entre eles desenvolvimento e projetos, competições e seleções femininas.
O trabalho também envolveu entrevistas com federações estaduais, jogadoras, árbitras e dirigentes. Tomás Corrêa, consultor especialista da Fifa que participou da agenda, descreveu o processo como uma etapa de aproximadamente um mês e meio, com conversas em diferentes níveis do futebol. A intenção era reunir perspectivas de quem atua na gestão, na arbitragem e dentro de campo.
Além do projeto de Duque de Caxias, a programação incluiu visitas técnicas a estruturas ligadas ao futebol feminino no Rio de Janeiro, entre elas o centro de treinamento da equipe feminina do Fluminense e instalações associadas à CBF. A observação presencial ajuda a complementar entrevistas e documentos: permite identificar como funcionam as atividades, quais recursos estão disponíveis e onde podem existir obstáculos à formação.
Essa combinação de fontes é relevante porque os indicadores nacionais podem esconder diferenças importantes entre regiões e categorias. O número de equipes ou competições, por exemplo, não descreve sozinho a facilidade de acesso de uma menina a um campo, a continuidade dos treinos ou a disponibilidade de profissionais preparados para trabalhar com futebol feminino.
O grupo internacional presente no Brasil incluiu Arijana Demirovic, responsável pela área de desenvolvimento da Fifa, Arbenita Morina, coordenadora de desenvolvimento, além dos consultores Tomás Corrêa e Romina Fernández. Representantes da Conmebol e do escritório da Fifa ligado à Copa do Mundo de 2027 também participaram das atividades, ao lado de profissionais da CBF.
Oportunidade e formação estão no centro do debate
Aline Pellegrino, gerente de competições femininas da CBF e diretora de legado do Mundial na Fifa, associou a visita à própria trajetória no esporte. A ex-jogadora destacou a importância de encontrar meninas praticando futebol e de criar mecanismos para ampliar as oportunidades oferecidas a elas.
A fala se conecta a uma questão estrutural: identificar talentos é apenas uma parte do processo. Para que uma atleta avance, são necessários espaços de prática, orientação técnica, calendário de jogos e condições para permanecer no esporte. A formação também depende de adultos preparados para conduzir atividades com atenção às diferentes idades e às necessidades de cada etapa.
O Daminhas da Bola procura articular educação e esporte, segundo sua fundadora, Thaissan Passos. A responsável pelo projeto defende que a atuação de iniciativas de base não se limite ao treinamento esportivo e que a educação faça parte do desenvolvimento das participantes. Esse foco ajuda a explicar por que projetos comunitários podem fornecer informações úteis para políticas mais amplas: eles lidam diretamente com barreiras de acesso e permanência.
O percurso de Thaissan também ilustra a relação entre formação de profissionais e expansão da modalidade. Ela participou de um programa de treinadores da Fifa na Granja Comary entre 2017 e 2018 e, posteriormente, trabalhou como técnica em clubes e categorias de base. A experiência não permite concluir que um único curso determine uma carreira, mas mostra como oportunidades de capacitação podem integrar o caminho de quem atua no futebol feminino.
Mais de duas mil pessoas passaram pelo Daminhas da Bola. Entre as ex-alunas que chegaram ao futebol profissional e à seleção brasileira estão Tarciane, zagueira do Lyon, Luany, atacante do Atlético de Madrid, e Kaylane, meio-campista do Flamengo. Esses casos dão visibilidade ao potencial de formação do projeto, embora não representem, por si só, a trajetória de todas as participantes ou a capacidade de replicar o mesmo resultado em qualquer localidade.
A discussão sobre caminhos de desenvolvimento também atravessa outras categorias da Seleção. O debate sobre a presença de jovens na Seleção Brasileira trata de outro contexto competitivo, mas chama atenção para uma questão comum ao esporte: a transição entre formação e alto rendimento depende de oportunidades e planejamento, além do desempenho individual.
Indicadores podem transformar visitas em ações
A etapa de observação, por si só, não garante mudanças para projetos ou atletas. O impacto dependerá de como as informações reunidas serão convertidas em prioridades, responsabilidades e acompanhamento. É por isso que a previsão de um documento com metas e indicadores é central: sem critérios verificáveis, fica mais difícil avaliar se as iniciativas adotadas ampliaram a prática ou reduziram desigualdades.
Entre os aspectos que um planejamento pode acompanhar estão a oferta de atividades para diferentes faixas etárias, a continuidade das participantes ao longo do tempo, a quantidade de competições e a formação de treinadoras e árbitras. Esses são exemplos de dimensões relevantes para avaliar uma política esportiva; não foram divulgados como metas já definidas pela Fifa ou pela CBF nesta agenda.
Também será necessário distinguir o alcance de projetos locais do desempenho das seleções e dos clubes. O futebol profissional tem demandas próprias, como calendário, estrutura de treinamento e competições, enquanto a base depende de acesso inicial e permanência. Uma estratégia abrangente precisa conectar esses níveis sem tratar o sucesso de atletas que chegaram ao alto rendimento como prova de que todas as barreiras foram superadas.
A preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027 acrescenta urgência ao debate, mas o legado da competição não se mede somente por estádios ou pela realização do torneio. A investigação sobre preços dos ingressos da Copa Feminina é um exemplo de como decisões específicas podem afetar o acesso do público; na formação esportiva, a mesma atenção a condições práticas será necessária para que as oportunidades alcancem mais meninas.
Próximo passo é tornar o planejamento verificável
A visita ao Daminhas da Bola aproximou dirigentes internacionais e nacionais de uma iniciativa que atua na formação de meninas fora dos grandes centros do futebol profissional. O encontro acrescentou uma perspectiva comunitária ao processo de construção da estratégia, junto às entrevistas, aos workshops e às visitas a estruturas de clubes e da CBF.
O resultado concreto dependerá do conteúdo do plano e de sua execução. Para que a agenda produza efeitos duradouros, será necessário divulgar objetivos claros, definir quem responde por cada ação e acompanhar indicadores que permitam comparar avanços ao longo do tempo. A participação de projetos locais nessa etapa também pode ajudar a identificar obstáculos que não aparecem apenas em relatórios institucionais.
Com cerca de 80 alunas atendidas atualmente e mais de duas mil pessoas alcançadas ao longo de sua trajetória, o Daminhas da Bola oferece um caso relevante para a discussão sobre acesso, educação esportiva e formação. A prioridade agora é transformar o diagnóstico reunido pela Fifa e pela CBF em medidas acompanháveis, sem confundir a visita com a implementação de uma política já concluída.

