Criciúma prevê déficit contábil de R$ 32 milhões no fim da temporada, além de um déficit de caixa estimado em R$ 22 milhões. Os números foram apresentados ao Conselho Deliberativo em reunião nesta terça-feira, enquanto o clube disputa a reta final da Série B e busca manter salários em dia, reorganizar as contas e preparar o orçamento de 2027.
Fatos centrais da notícia
- O clube projeta déficit contábil de R$ 32 milhões e déficit de caixa de R$ 22 milhões.
- A diretoria prevê concluir sete empréstimos até dezembro; seis já estão em andamento.
- O pedido para elevar o orçamento do futebol profissional a R$ 56,8 milhões ainda depende de análise.
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Déficit contábil do Criciúma expõe a pressão financeira
A apresentação aos conselheiros detalhou valores já gastos ao longo da temporada e projeções para os três meses finais. O quadro mostra duas medidas diferentes: o resultado contábil, estimado no vermelho em R$ 32 milhões, e a necessidade de caixa, calculada em R$ 22 milhões negativos.
Essa diferença não é apenas uma variação de linguagem. O déficit de caixa trata da disponibilidade de recursos para cumprir compromissos e pagamentos no período. Já o resultado contábil considera receitas e despesas reconhecidas nas contas do clube, conforme seus registros. Os conceitos se relacionam, mas não são intercambiáveis: cada um revela uma dimensão distinta da situação financeira.
Por isso, os valores não devem ser somados como se representassem um único rombo de R$ 54 milhões. Também não indicam, isoladamente, que o clube deixará de pagar obrigações. A leitura correta depende do fluxo de entradas e saídas, dos prazos das dívidas e de como as receitas são reconhecidas nos demonstrativos.
A própria direção destacou a manutenção da folha salarial como prioridade. O vice-presidente Matheus Benetton afirmou que o Criciúma manteve os salários em dia durante a temporada e pretende seguir assim até o encerramento do ano. A declaração aponta o compromisso imediato da gestão, mas não elimina a necessidade de administrar o déficit e os empréstimos previstos.
O desafio é conhecido por clubes que tentam conciliar desempenho esportivo e controle financeiro: gastar o suficiente para competir sem comprometer a capacidade de honrar pagamentos. A reação do Cruzeiro na disputa por objetivos esportivos oferece outro exemplo de como ambição em campo e planejamento de elenco caminham juntos, embora cada clube tenha uma realidade orçamentária própria.
Empréstimos sustentam o caixa, mas ampliam compromissos
Para ajustar a operação e buscar o menor custo possível de juros, o Criciúma está efetivando seu sexto empréstimo e projeta contratar um sétimo até dezembro. A informação apresentada na reunião indica que o crédito é parte do plano para atravessar a temporada, mas não detalha valores, prazos, garantias ou condições de cada operação.
Esse limite de informação é relevante. Sem conhecer taxas e vencimentos, não é possível calcular quanto os empréstimos acrescentarão ao custo futuro nem avaliar a pressão anual das parcelas. O que se pode afirmar, a partir dos dados divulgados, é que a gestão prevê recorrer a novas captações e diz ter organizado o endividamento dentro do planejamento atual.
Benetton afirmou que, segundo a direção, não foram contraídas dívidas após o início do mandato da atual gestão. Ele também disse que a reorganização do clube foi planejada para o ciclo completo da administração, de 36 meses. A declaração apresenta a estratégia defendida pela diretoria, mas a comprovação do andamento financeiro depende da análise dos demonstrativos e das informações submetidas aos órgãos internos do clube.
Na prática, empréstimo não é receita recorrente: oferece dinheiro no presente e cria uma obrigação de pagamento posterior. Para avaliar se a escolha é sustentável, conselheiros e dirigentes precisam observar não apenas o valor captado, mas o custo efetivo, o calendário de vencimentos e a compatibilidade entre as parcelas e as receitas esperadas.
O debate financeiro também se conecta à montagem do elenco. Salários, premiações e contratações disputam espaço no orçamento, enquanto a comissão técnica precisa manter competitividade. O caso do Flamengo sem reserva para o camisa 9 mostra, em outro contexto, como decisões sobre profundidade do elenco podem virar tema esportivo e de gestão. No Criciúma, a direção afirma que o controle da folha é uma prioridade, mas a projeção de despesas torna essa escolha especialmente sensível.
Orçamento do futebol pode subir, mas ainda aguarda avaliação
No encerramento de 2026, a diretoria havia previsto despesa de R$ 31.924.835,92 para o futebol profissional. Agora, o clube pediu uma readequação orçamentária para R$ 56,8 milhões. A diferença é expressiva, mas o novo valor ainda não foi aprovado: o Conselho Fiscal solicitou esclarecimentos, e o assunto deverá voltar à pauta nas próximas semanas.
O pedido, portanto, não deve ser tratado como verba já liberada ou como gasto definitivamente realizado. Trata-se de uma proposta de ajuste que depende de explicações e deliberação. Essa distinção é importante para acompanhar o caso: orçamento autorizado, despesa executada e projeção financeira são etapas diferentes da gestão.
Para os conselheiros, a análise precisa considerar quais rubricas justificam a revisão, de onde virão os recursos e quais despesas estão incluídas no total. A fonte não detalhou a composição dos R$ 56,8 milhões, então não há base para atribuir o aumento a contratações específicas, salários ou outra categoria isolada.
Os números também precisam ser lidos em conjunto com o desempenho esportivo, sem confundir uma eventual conquista de acesso com uma solução automática para as contas. Subir de divisão pode alterar o cenário de receitas e custos, mas a projeção apresentada pelo Criciúma reconhece que o planejamento precisa funcionar em mais de uma possibilidade.
Venda de Bidu e cenários para 2027 entram no planejamento
A consultoria financeira Outfield confirmou os valores da negociação do atacante Bidu com o Sporting, de Portugal. O acordo prevê duas parcelas de R$ 1,1 milhão, totalizando R$ 2,2 milhões. A primeira foi paga em setembro; a segunda está prevista para o fim de 2027.
O calendário de recebimento ajuda a entender por que receitas de transferências não necessariamente resolvem uma necessidade imediata de caixa. Uma parcela já entrou, enquanto a outra está programada para um período posterior. Sem informações adicionais sobre eventuais custos ou destinação dos recursos, não é possível afirmar qual parcela do déficit essa negociação cobre.
A direção também apresentou seis cenários orçamentários para a próxima temporada, considerando tanto o acesso à Série A quanto a permanência na Série B. O objetivo declarado é mapear quanto poderá ser destinado a investimentos na folha salarial em cada situação. Em termos de gestão, trabalhar com cenários evita que um orçamento dependa de um único resultado esportivo.
Essa prudência é especialmente pertinente porque receitas, custos de elenco e calendário de pagamentos podem variar conforme a divisão. A proposta é preparar limites de gasto para diferentes contextos, em vez de assumir desde já que o acesso está garantido. O planejamento, contudo, só ganha força quando as premissas e os compromissos são acompanhados com transparência.
A reta final da Série B mantém o Criciúma diante de uma dupla cobrança: buscar resultado em campo e proteger a capacidade financeira do clube. A luta pelo acesso não apaga a necessidade de aprovar um orçamento coerente, controlar os juros dos empréstimos e preservar a pontualidade da folha.
O que os conselheiros devem acompanhar daqui para frente
Os próximos pontos concretos são a resposta às solicitações do Conselho Fiscal, a eventual votação do orçamento readequado e a atualização das projeções de caixa até dezembro. Também será importante observar se o sétimo empréstimo previsto se confirma e quais condições serão apresentadas para essa operação.
Para 2027, a pergunta central será como cada cenário esportivo se converte em limite real de despesas, especialmente na folha. O clube diz ter elaborado alternativas para Série A e Série B; agora, a consistência dessas projeções dependerá dos números detalhados e da capacidade de execução.
O cenário apresentado não significa, por si só, colapso financeiro nem garante tranquilidade. Ele revela uma temporada que exige financiamento, revisão de orçamento e disciplina nos pagamentos. A melhor medida para acompanhar a situação é separar déficit contábil de necessidade de caixa, cobrar a divulgação das premissas e verificar se os compromissos assumidos cabem nas receitas projetadas.
Com essa distinção em mente, conselheiros e torcedores podem avaliar os próximos anúncios sem transformar projeções em dívidas já vencidas ou receitas futuras em dinheiro disponível. O Criciúma terá de mostrar, nos próximos meses, se o plano de manter salários em dia e preparar os dois cenários para 2027 se sustenta junto à disputa por uma vaga na elite, tema que também aparece na cobertura sobre a pressão esportiva dos clássicos nacionais.

