Ele brilhou no Santos, ficou no quase no Flamengo e hoje tenta superar a depressão na 5ª divisão. O reencontro de Geuvânio com o futebol profissional se dá em um cenário contrastante com os dias de glória: o modesto estádio do Votoraty, equipe que retornou à ativa em 2026 após 14 anos de inatividade. O atacante, que já vestiu camisas de gigantes do esporte, agora busca reescrever sua história, longe dos holofotes, mas com a força de quem luta contra um adversário silencioso e implacável.
Um Retorno Inesperado em Condições Adversas
O vestiário do Votoraty, equipe que disputa a quinta e última divisão do Campeonato Paulista, tem um ar de improviso. Uniformes repousam sobre macas, e a pintura descascada das paredes evoca um ambiente de abandono. É neste cenário que Geuvânio, aos 34 anos, busca um recomeço. Ao seu lado, rostos de atletas em sua maioria amadores, que chegam ao local, situado ao lado de um terminal rodoviário em Votorantim, muitas vezes a pé.
Enquanto muitos ali sonham em ascender profissionalmente, Geuvânio tem um objetivo diferente: encerrar sua carreira com dignidade e, acima de tudo, vencer a depressão, um fantasma que o assombra há anos e que, segundo ele, prejudicou significativamente sua trajetória.
A Luta Silenciosa: Depressão e o Impacto na Carreira
“Isso atrapalhou muito a minha carreira. Tentei retomar algumas vezes, porém não consegui por causa das lesões. Estava cogitando até não querer mais jogar profissionalmente, estava nos amadores de São Paulo. Porém, dentro de casa via que meus filhos tinham aquela paixão por futebol”, desabafa o jogador.
Geuvânio reconhece a importância de buscar ajuda. “A gente não é super-homem, tem que assumir que precisa de ajuda. E foi um momento que acabei perdendo um pouco do caminho, que era o futebol. Tive alguns problemas pessoais de cabeça e me abalei”, confessa.
As dificuldades financeiras não são o motor para seu retorno. A fortuna acumulada durante sua passagem pelo futebol chinês, onde chegou a receber cerca de R$ 1 milhão por mês e foi vendido por mais de R$ 53 milhões, garante uma vida confortável. “Tenho as minhas coisas. Graças a Deus, consegui juntar dinheiro, comprar umas casas para aluguel. Tenho a minha vida estabilizada”, afirma.
Propostas Digitais e a Autonomia nas Negociações
Sem empresário, Geuvânio tem gerenciado sua carreira de forma independente, utilizando as redes sociais como principal canal para receber propostas. “Hoje estou trabalhando sozinho. No meu Instagram, às vezes, entro em contato com um empresário ou um clube, aí conversa comigo, vê como que estou, se tenho a possibilidade de jogar e aí negocio”, explica.
Ele reconhece que sua fama facilita o processo. “É um pouco mais fácil para mim pelo fato de ter um nome no futebol. Mas para quem não tem tanta história no futebol, é muito mais difícil”, pondera.
O Votoraty: Um Recomeço com Raízes Históricas
O retorno ao Votoraty não é por acaso. O clube, fundado em 2009, teve uma trajetória de sucesso inicial, projetando nomes como Fernando Diniz. Na época, o Votoraty conquistou a Série A3 e a Copa Paulista, garantindo vaga na Copa do Brasil. É essa história de superação que Geuvânio espera replicar em sua própria jornada.
“Essa é a realidade. O futebol brasileiro é isso aqui. A realidade é essa. Quando comecei, ganhava 80 reais por mês na época, no Jabaquara. Eu estava rico, comprava tudo de bolacha no mês”, relembra, contrastando o passado com o presente.
Para os jovens atletas, Geuvânio deixa um conselho: “A garotada que está começando agora tem que aproveitar esse momento, porque é a oportunidade deles, estão novos ainda, têm muito chão ainda pela frente. E o futebol é muito rápido, se você faz um campeonato bom, hoje está muito mais fácil, tem muita visibilidade por causa das redes sociais. Se faz cinco jogos bons, faz gol e dá assistência, já está sendo visto por outras equipes”.
O Primeiro Passo: Um Gol de Esperança
O retorno de Geuvânio aos gramados foi marcado por um gol. Na estreia pelo Votoraty, contra o Flamengo-SP, ele balançou as redes, encerrando um jejum pessoal de quase quatro anos sem marcar profissionalmente. Foi um gol de empate, mas com um significado imenso: o primeiro passo na superação e na busca por um final digno para uma carreira repleta de altos e baixos. O atacante, que já foi destaque em competições importantes como a Copa do Brasil, agora joga em um palco modesto, mas com a mesma vontade de quem busca um novo começo.
A trajetória de Geuvânio é um lembrete de que, mesmo após o brilho nos grandes palcos, a vida no futebol pode reservar desafios inesperados. A luta contra a depressão é a partida mais importante que ele está jogando em 2026, e a torcida é para que ele saia vitorioso.
Para quem acompanha o cenário do futebol, entenda também os desafios de outros clubes em competições nacionais, como o Palmeiras na Copa do Brasil e o Corinthians em momentos de pressão. A carreira de jogadores também pode ser afetada por críticas, como no caso de Roger Machado, alvo de vaias exageradas. No entanto, o bom desempenho de atletas como Vitinho no Botafogo, que elogiou o trabalho de Franclim Carvalho, mostra que o talento e a confiança podem prevalecer.

