Jonathan Jesus saiu do futsal, tornou-se zagueiro no Ceará e ganhou espaço no Cruzeiro até receber a convocação de Carlo Ancelotti para os amistosos da Seleção Brasileira em novembro. Aos 22 anos, o defensor percorreu em cerca de seis anos uma trajetória marcada por decisões de familiares, treinadores e dirigentes que identificaram seu potencial e abriram caminhos em momentos decisivos.
Fatos centrais da notícia
- Jonathan atuava como atacante e veio do futsal antes de chegar ao Ceará, em 2021.
- João Marcos foi determinante na mudança de posição; no Cruzeiro, Tite e Artur Jorge também tiveram papel importante.
- O clube mineiro avalia o zagueiro em pelo menos 20 milhões de euros após sua consolidação e a convocação.
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Jonathan Jesus: a mudança de posição que alterou a carreira
Antes de se firmar como defensor, Jonathan jogava futsal em São Vicente, no litoral paulista, e atuava como atacante. A passagem para o futebol de campo começou quando ele tinha 16 anos, em 2021, com a ajuda do tio Heleno dos Santos Alves, ex-volante que passou por clubes como Ceará, Fortaleza, Sport e Santos.
Heleno usou uma relação construída durante a própria carreira para conseguir uma oportunidade de avaliação no Ceará para o sobrinho e outro jovem. A aproximação levou Jonathan ao clube cearense, mas foi a observação de quem trabalhava na formação que acabou definindo o rumo de sua trajetória.
O caso tem pontos em comum com outras trajetórias de jovens que avançaram da formação para o radar nacional, embora cada percurso tenha suas particularidades. A história de Alisson Santana da base à Seleção, por exemplo, também evidencia como oportunidades e decisões tomadas durante a formação podem acelerar a ascensão de um jogador.
Jonathan Jesus encontrou no Ceará o treinador que viu um zagueiro
João Marcos, então coordenador das categorias de base do Vozão e antigo companheiro de Heleno, foi uma das figuras centrais na adaptação do jovem. Depois de acompanhar os primeiros treinos, ele decidiu testá-lo na defesa. Jonathan tinha recursos técnicos e velocidade, mas ainda precisava assimilar comportamentos próprios de um zagueiro.
A avaliação inicial não foi uma aposta baseada apenas no resultado de um treino. João Marcos identificou características que poderiam ser aproveitadas na nova função: percepção para antecipar jogadas, capacidade de fazer coberturas e qualidade com a bola. A mudança exigia desenvolver leitura defensiva, posicionamento e tomada de decisão, competências diferentes das cobradas de um atacante.
O ajuste de posição também mostra por que a formação de um defensor não se resume a altura ou força física. Antecipar um passe, cobrir o espaço deixado por um companheiro e escolher o momento de sair da linha são ações que dependem de percepção e coordenação coletiva. João enxergou nesses atributos uma base para transformar um jogador de ataque em zagueiro.
O desenvolvimento foi rápido. Em 2026, mesmo ainda podendo atuar por mais duas temporadas no sub-20, Jonathan estreou pela equipe principal do Ceará. Eduardo Barroca foi o técnico que o levou ao time profissional em uma partida da Série B, primeiro passo de uma transição que não significou, por si só, titularidade imediata.
No ano seguinte, Jonathan voltou a defender o sub-20 na Copa São Paulo de Futebol Júnior antes de ser integrado de vez ao elenco profissional. Vagner Mancini conduziu essa etapa e deu sequência ao processo. A passagem entre categorias, com espaço para retornar à base e depois consolidar-se entre os adultos, revela uma formação menos linear do que a ideia de ascensão meteórica pode sugerir.
Do Ceará ao Cruzeiro: aposta, espera e disputa por espaço
As atuações de Jonathan na Série B chamaram a atenção do Cruzeiro no primeiro semestre de 2026. O defensor foi a primeira aposta da gestão de Pedro Lourenço em uma janela que também trouxe nomes de maior repercussão, como Cássio, Kaio Jorge, Matheus Henrique e Walace. A indicação partiu de Alexandre Mattos, então CEO do futebol e responsável pela montagem do elenco naquele período.
A chegada a um clube de grande exposição não produziu uma sequência imediata. Os primeiros 18 meses na Toca da Raposa foram de instabilidade e poucas oportunidades. No ano seguinte, Jonathan começou como titular, mas perdeu espaço com a consolidação de Lucas Villalba e Fabrício Bruno. Para um zagueiro jovem, a concorrência significava disputar minutos em uma posição na qual entrosamento e confiança do treinador pesam muito.
Mesmo com menos espaço, o defensor voltou a chamar atenção ao participar da semifinal da Copa do Brasil contra o Corinthians. Foram cerca de 150 minutos em campo, período suficiente para recolocá-lo no centro das conversas sobre seu potencial. Depois disso, o Zenit, da Rússia, apresentou uma proposta de 10 milhões de euros, valor equivalente a aproximadamente R$ 60 milhões na referência citada à época.
A negociação, porém, não avançou. Contratado para substituir Leonardo Jardim, Tite pediu a permanência de Jonathan, e o Cruzeiro não incluiu o zagueiro nas tratativas ligadas à contratação de Gerson, que veio do Zenit em uma operação de 27 milhões de euros. A decisão teve um peso esportivo claro: preservar um defensor que o clube entendia poder ocupar papel relevante no elenco, em vez de tratá-lo apenas como ativo negociável.
As conversas sobre permanência e valorização também aparecem em outros clubes, ainda que em contextos diferentes. No São Paulo, o futuro contratual de Lucas ganhou atenção após o jogador voltar a decidir, como mostra o debate sobre a renovação de Lucas no São Paulo. No caso de Jonathan, o ponto central foi a escolha do Cruzeiro de mantê-lo diante de uma oferta concreta.
Jonathan Jesus recuperou a titularidade após lesão no joelho
O início de 2026 trouxe a Jonathan uma sequência como titular ao lado de Fabrício Bruno. A lesão no joelho direito, no fim da primeira fase do Campeonato Mineiro, interrompeu o momento. Depois de se recuperar, ele ficou mais de um mês sem entrar em campo, um intervalo que poderia dificultar a retomada de ritmo e espaço na equipe.
Artur Jorge voltou a utilizá-lo no começo de seu trabalho, e o defensor permaneceu entre os titulares. Desde abril, completou os 90 minutos em 27 partidas. A sequência não apaga o período de ausência, mas ajuda a explicar por que o zagueiro ganhou relevância no Cruzeiro antes da convocação: regularidade e presença contínua ofereceram ao treinador uma referência estável na defesa.
A convocação por Ancelotti para os amistosos de novembro representa um novo nível de exposição. Jonathan contou que chorou ao receber a notícia. A reação traduz o peso pessoal de uma trajetória que começou longe dos holofotes do futebol profissional e passou por uma mudança radical de posição antes de chegar à Seleção.
Convocação aumenta a pressão sobre o valor de mercado
O Cruzeiro pede pelo menos 20 milhões de euros para negociar Jonathan, aproximadamente R$ 122 milhões conforme a cotação informada. A avaliação dobrou em relação ao patamar da oferta do Zenit mencionada na temporada anterior. No meio do ano, Real Sociedad e Betis também demonstraram interesse, e a presença na Seleção pode ampliar a atenção de outros clubes.
Esse valor é uma posição do clube, não uma garantia de venda por aquele montante. Na prática, uma transferência depende de fatores como duração contratual, concorrência entre interessados, necessidade de reposição e disposição do jogador e da equipe para negociar. A convocação aumenta a visibilidade, mas não elimina essas variáveis nem transforma automaticamente interesse em proposta aceita.
Para o Cruzeiro, o desafio é equilibrar duas frentes: aproveitar esportivamente um zagueiro que se firmou após superar uma lesão e avaliar uma eventual negociação em patamar compatível com sua importância. A gestão precisa considerar não apenas o preço oferecido, mas também o custo de encontrar um substituto com características e nível de adaptação semelhantes.
A trajetória de Jonathan mostra que a convocação não nasceu de um único momento. Heleno abriu a porta do Ceará, João Marcos reconheceu a possibilidade de uma mudança de posição, Barroca e Mancini participaram da transição profissional, e decisões posteriores no Cruzeiro ajudaram a preservar o defensor. Agora, com a Seleção e o interesse europeu no horizonte, o clube terá de decidir se a prioridade é manter a peça central da defesa ou transformar a valorização em uma negociação vantajosa.
O próximo sinal concreto será a sequência de Jonathan após a convocação e a forma como o Cruzeiro responderá a eventuais ofertas. Até lá, o dado mais seguro é esportivo: depois de sair do futsal como atacante, superar uma lesão e conquistar espaço em Belo Horizonte, o zagueiro chega à Seleção com uma trajetória construída por oportunidades bem identificadas e escolhas que mudaram seu caminho.

