Renato Gaúcho no Atlético começou em clima de festa, mas terminou longe das expectativas: contratado para integrar a chamada Selegalo em 1994, o atacante disputou 36 partidas, marcou 10 gols e acabou dispensado após uma temporada marcada por resultados abaixo do esperado, dificuldades internas e uma crise que culminou em um episódio na concentração do clube.
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Renato Gaúcho no Atlético: da rivalidade à recepção apoteótica
A chegada de Renato a Belo Horizonte reuniu ingredientes de uma história improvável. Antes de vestir a camisa alvinegra, ele já havia despertado antipatia entre atleticanos. Em 1987, defendendo o Flamengo, foi decisivo contra o Galo na semifinal do Campeonato Brasileiro, com um gol no Mineirão. Anos depois, em 1992, também passou pelo Cruzeiro, arquirrival do Atlético.
Por isso, o anúncio de sua contratação surpreendeu torcedores e antigos adversários. Em 1994, no desembarque no Aeroporto da Pampulha, uma multidão o recebeu com festa. A hostilidade acumulada deu lugar a uma curiosa celebração: torcedores que antes o provocavam passaram a saudá-lo como reforço do próprio time.
A mudança de ambiente não foi apenas simbólica. O Atlético apostava que a experiência e a personalidade do atacante ajudariam a transformar um elenco ambicioso em candidato a títulos. Renato, por sua vez, justificou a escolha pelo valor da proposta e pelas necessidades da família. Segundo relatos da época, o contrato previa US$ 710 mil por 12 meses e 12 passagens aéreas mensais.
O jogador chegou a comparar o salário que receberia com o de Bebeto, então no Deportivo La Coruña. A declaração alimentou a repercussão da contratação e colocou ainda mais holofotes sobre uma operação que já chamava atenção pelo tamanho do investimento.
Uma equipe estrelada que não encontrou equilíbrio
A Selegalo foi montada como um projeto de impacto. Além de Renato, o elenco reuniu nomes como Luís Carlos Winck, Adilson Batista, Gaúcho, Éder Aleixo e Neto. No papel, a combinação de jogadores experientes e talentos conhecidos parecia capaz de elevar o nível da equipe e devolver protagonismo ao Atlético.
Mas reunir nomes de peso não resolvia, por si só, as necessidades de um time. O funcionamento coletivo dependia de entrosamento, disposição para cumprir funções sem a bola e estabilidade fora de campo. A avaliação feita posteriormente por integrantes daquele grupo é que a equipe não conseguiu construir essa unidade.
O ex-lateral Paulo Roberto Prestes, que primeiro enfrentou Renato como rival e depois dividiu o vestiário com ele, descreveu um ambiente atravessado por diferenças salariais. Em seu relato, jogadores que já estavam no clube acumulavam três meses de salários atrasados, enquanto os reforços contratados recebiam condições diferentes. A situação provocava comentários e desconforto entre os atletas.
Paulo Roberto contou que o então presidente Afonso Paulino lhe explicou que um valor emprestado pelo ex-governador Newton Cardoso seria destinado especificamente às contratações. O episódio ajuda a entender uma tensão central do projeto: o clube tentava formar uma equipe de alto custo sem conseguir manter as mesmas condições financeiras para todo o elenco.
Esse tipo de desequilíbrio não determina sozinho o desempenho dentro de campo, mas pode afetar a confiança e a coesão do grupo. Quando parte dos jogadores sente que o esforço e a remuneração não acompanham os mesmos critérios, a comissão técnica precisa administrar não apenas a estratégia, mas também a relação entre os integrantes do vestiário.
A mobilização em torno da equipe, no entanto, era enorme. Os treinos na Vila Olímpica atraíam tanta gente que torcedores se espremiam junto ao alambrado, subiam em árvores e acompanhavam as atividades de pontos elevados. A curiosidade em torno da Selegalo transformava até sessões de preparação em acontecimentos públicos.
O contraste era evidente: havia entusiasmo nas arquibancadas e atenção constante sobre os craques, mas a pressão aumentava a cada resultado frustrante. A história de distanciamento entre o Fluminense e sua torcida mostra outro aspecto da relação entre clubes e público; no caso do Atlético de 1994, o cenário era inverso, com grande mobilização e expectativa que tornavam os tropeços ainda mais expostos.
A estreia animou, mas não garantiu continuidade
A estreia oficial da Selegalo aconteceu em 30 de janeiro de 1994, diante do Valério, pelo Campeonato Mineiro. O Atlético venceu por 3 a 0 no Mineirão. Neto abriu o placar em cobrança de falta, Renato também balançou a rede e Reinaldo Rosa, então uma promessa formada na base, fechou o resultado.
O início ofereceu exatamente o que a torcida esperava: vitória, gols dos reforços e a sensação de que o investimento poderia produzir uma equipe dominante. Para Renato, marcar logo no primeiro jogo oficial pelo clube também ajudava a transformar a recepção festiva em expectativa esportiva concreta.
Mas uma estreia positiva não era prova de que o time havia resolvido seus problemas. Ao longo da temporada, os resultados não acompanharam o tamanho da expectativa. Vieram derrotas, pressão e mudanças na comissão técnica. Valdir Espinosa deixou o comando, e Levir Culpi assumiu a tarefa de reorganizar o elenco.
A análise de Paulo Roberto sobre o desempenho foi direta: faltou encaixe coletivo e comprometimento equilibrado entre os setores. Segundo ele, alguns jogadores ficavam mais adiantados enquanto outros precisavam cobrir grandes espaços defensivos. Essa descrição aponta para uma dificuldade tática concreta: sem participação coordenada na marcação, o time tende a alongar suas linhas e exigir esforço excessivo de quem protege a defesa.
Não se tratava apenas de escolher nomes para a escalação. Um conjunto ofensivo precisa pressionar de forma organizada, recompor quando perde a bola e manter distâncias adequadas entre defesa, meio-campo e ataque. Se essas tarefas ficam concentradas em poucos atletas, a qualidade individual pode não compensar os espaços concedidos ao adversário.
A crise interna acelerou o fim da passagem
Com a equipe sem engrenar e a pressão por uma reformulação, o espaço de Renato diminuiu. A mudança de treinador trouxe novas decisões sobre o elenco, e o atacante deixou de ser considerado titular. O episódio que marcou a ruptura aconteceu na concentração do Atlético, no Casarão do Planalto, em um dia de jogo.
De acordo com a lembrança de Paulo Roberto, Levir Culpi comunicou a escalação e informou que Renato começaria no banco. O jogador questionou a decisão e, depois de ouvir a resposta do treinador, levantou-se e foi embora da concentração. O caso tornou visível a distância entre o status de estrela com que havia chegado e o papel que passaria a ocupar na equipe.
A saída não deve ser reduzida a um único desentendimento. O episódio ocorreu quando o clube já tentava reformular um projeto que não entregara o rendimento esperado. A troca no comando, as dificuldades coletivas e os problemas relatados no ambiente interno formavam um quadro mais amplo, no qual a permanência de atletas de grande projeção se tornou uma decisão esportiva e administrativa.
Renato foi dispensado após 36 jogos e 10 gols. Os números mostram uma contribuição individual, mas também ajudam a dimensionar a distância entre a expectativa criada na contratação e o resultado final. O atacante não teve uma passagem longa o bastante para consolidar uma trajetória marcante no Atlético, e a Selegalo não se transformou no time dominante que muitos imaginavam.
Em entrevista ao ge em 2026, Renato relembrou o grupo com humor e usou uma expressão provocadora para descrevê-lo, dizendo que havia muitos craques e também muita confusão. A fala combina com a memória contraditória daquele elenco: nomes conhecidos, enorme curiosidade popular e um ambiente que, segundo relatos de quem viveu o período, era difícil de administrar.
O que a Selegalo deixou como lição para o Atlético
A passagem de Renato Gaúcho pelo Atlético mostra por que contratações de grande repercussão precisam ser avaliadas além do currículo dos atletas. Um elenco estrelado pode elevar a expectativa e atrair público, mas depende de planejamento financeiro, clareza sobre papéis e capacidade de transformar talento individual em funcionamento coletivo.
No caso da Selegalo, o contraste entre a euforia da chegada e a frustração do desfecho foi acentuado por fatores que se cruzaram: salários atrasados para jogadores antigos, reforços com condições específicas, resultados insuficientes e uma mudança de treinador que alterou o espaço de Renato. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica toda a temporada; juntos, porém, ajudam a entender por que a aposta perdeu força.
Esse tipo de cenário também ajuda a compreender a pressão que acompanha decisões de elenco em clubes de massa. A discussão sobre a disputa de espaço e desempenho no Botafogo trata de outro contexto, mas expõe uma questão recorrente no futebol: expectativas externas e escolhas técnicas precisam convergir para que um projeto se sustente.
Em 31 de outubro de 2026, a lembrança da passagem ganhou novo interesse porque Renato, então treinador do Grêmio, estava diante do Atlético na semifinal da Copa do Brasil, segundo a notícia que resgatou a história. O reencontro colocava frente a frente o técnico adversário e um clube com o qual ele teve uma relação curta, intensa e cheia de reviravoltas.
A Selegalo começou como uma promessa de estrelato, teve uma estreia convincente e terminou em crise antes de completar um ano. Para o Atlético, o caso reforça uma recomendação prática: antes de concentrar recursos em nomes de impacto, é preciso garantir equilíbrio no elenco, previsibilidade financeira e um modelo de jogo compatível com as características dos jogadores. Sem esses pilares, a euforia da apresentação pode se transformar rapidamente em cobrança.

