Montevideo City Torque chega à semifinal da Copa Sul-Americana após uma ascensão construída desde a entrada do Grupo City no clube uruguaio. Fundado em 2007, o time saiu das divisões inferiores, investiu em estrutura e formação de jogadores e agora tenta reverter contra o Atlético-MG a derrota por 3 a 0 sofrida na Arena MRV. A partida de volta está marcada para quarta-feira, às 19h, no Estádio Centenário, em Montevidéu.
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Montevideo City Torque mudou de patamar com o Grupo City
A trajetória do clube mistura crescimento esportivo e uma transformação institucional pouco comum no futebol uruguaio. O Torque foi fundado em 26 de dezembro de 2007 e começou a disputar o campeonato nacional na temporada 2008/2009, ainda na Segunda Divisão Amadora. Em julho de 2012, conquistou o acesso à Segunda Divisão Profissional, mas a chegada à elite ainda levaria alguns anos.
O ponto de virada ocorreu em 2017, quando o clube foi vendido ao Grupo City. A mudança aproximou o Torque de um modelo empresarial e esportivo internacional, com investimento em instalações, atenção à formação de atletas e uma identidade conectada à rede de equipes do conglomerado. No mesmo período, a equipe conseguiu o acesso à Primeira Divisão, abrindo caminho para uma nova etapa.
Em 3 de fevereiro de 2018, o time fez sua estreia na elite diante do Nacional, no Centenário. A evolução foi rápida: no ano seguinte, o Torque chegou à decisão da Primeira Divisão uruguaia, novamente contra o Nacional. O resultado mais amplo da mudança, porém, não se mede apenas por uma campanha ou por uma final. A estrutura criada pelo grupo passou a servir como base para a continuidade do projeto.
O jornalista uruguaio Fefe Moreira descreveu o clube como uma proposta diferente da tradição mais associada ao futebol do país, em que bairro, história e pertencimento costumam ocupar papel central. Na avaliação dele, o Torque desenvolveu uma estrutura institucional relevante, investiu na base e busca estabelecer uma identidade própria de jogo.
Montevideo City Torque investiu em estrutura e formação
Em 2020, o Atlético Torque adotou o nome Montevideo City Torque e apresentou um novo escudo, alinhado à identidade visual de outros clubes ligados ao Grupo City. A reformulação tornou mais evidente a integração à rede internacional, mas também incorporou referências uruguaias ao símbolo: o Sol de Maio, associado à bandeira nacional, elementos ligados ao Rio da Prata e uma roda que remete às origens do clube.
A mudança de marca veio acompanhada de um investimento expressivo em infraestrutura. O centro de treinamento construído para a equipe custou mais de quatro milhões de dólares, valor estimado em cerca de R$ 20 milhões na reportagem de origem. O complexo ocupa 95 mil metros quadrados e reúne cinco campos, incluindo um de grama sintética, além de ginásio, academias, escritórios e centro médico.
Esse tipo de investimento tem uma função prática: oferecer condições de treino e desenvolvimento que sustentem a atividade diária do elenco principal e das categorias de formação. Para um clube com menos tempo de história do que os grandes nomes do Uruguai, instalações próprias podem ajudar a atrair jovens, organizar o trabalho técnico e criar um caminho mais claro entre a base e o futebol profissional.
Há, contudo, uma diferença entre dispor de estrutura e transformá-la em resultados constantes. O centro de treinamento, por si só, não garante títulos nem presença frequente em torneios continentais. O desafio do Torque é converter os recursos e o trabalho de formação em competitividade dentro de campo, sem perder de vista a sustentabilidade do projeto e a necessidade de manter um elenco capaz de enfrentar adversários mais experientes.
Essa aposta na formação também aparece em outros clubes sul-americanos, embora cada instituição tenha sua própria realidade. O acompanhamento de jovens talentos do Cruzeiro na semifinal sub-17, por exemplo, mostra como a base pode ganhar visibilidade esportiva quando atletas e equipes avançam em competições decisivas.
Da primeira campanha continental à semifinal da Sul-Americana
O crescimento do Montevideo City Torque passou a aparecer também nas competições internacionais. Em 2021, o clube disputou a Copa Sul-Americana e encerrou sua participação com 11 pontos, depois de perder apenas uma das seis partidas. No ano seguinte, alcançou a Copa Libertadores pela primeira vez. Na fase inicial, enfrentou o Barcelona de Guayaquil e foi eliminado nos pênaltis, após dois empates.
Essas campanhas não formaram uma linha reta de ascensão. Em 2026 e 2024, o desempenho no Campeonato Uruguaio não levou o clube a torneios continentais. A ausência mostra um limite importante do projeto: investimento e estrutura podem elevar o potencial de uma equipe, mas a classificação depende de resultados domésticos e de regularidade ao longo da temporada.
O retorno ao cenário internacional foi conquistado com o quarto lugar na tabela acumulada do Campeonato Uruguaio de 2026, resultado que garantiu a vaga na Sul-Americana desta temporada. No Grupo F, o Torque terminou na primeira posição, com 13 pontos, à frente de Grêmio, Deportivo Riestra, da Argentina, e Palestino, do Chile. A liderança deu ao time classificação direta às oitavas de final.
Nas fases eliminatórias, o clube uruguaio superou o Tigre, da Argentina, e depois deixou para trás o Cienciano, do Peru, para chegar à semifinal. O percurso ampliou a exposição de uma equipe ainda jovem e colocou o projeto diante de um adversário de maior tradição e investimento no futebol brasileiro. A campanha representa o melhor momento continental do Torque, mas também aumenta a pressão sobre um elenco que precisa conciliar ambição e experiência limitada nesse estágio.
Para Fefe Moreira, o objetivo do clube não parece se resumir à conquista imediata de um campeonato. A proposta seria consolidar uma instituição competitiva e sustentável, capaz de revelar jogadores e abrir oportunidades no mercado internacional. Essa estratégia pode favorecer a continuidade do trabalho, mas traz uma escolha delicada: desenvolver atletas e, ao mesmo tempo, preservar qualidade suficiente para disputar torneios de alto nível.
O que está em jogo contra o Atlético-MG
Na semifinal, o primeiro confronto terminou com vitória do Atlético-MG por 3 a 0, na Arena MRV. A vantagem deixa o time brasileiro em posição favorável, enquanto o Montevideo City Torque precisa buscar uma reação no jogo de volta, no Centenário. O resultado anterior também evidencia a diferença de pressão para cada lado: o Galo pode administrar a vantagem, e o time uruguaio precisa encontrar caminhos para atacar sem se expor ainda mais.
Para o Torque, a missão não é apenas marcar gols. Uma equipe que precisa reduzir uma desvantagem de três tentos tende a assumir riscos, mas permitir espaços pode facilitar os contra-ataques do Atlético-MG. O controle das transições, a proteção da defesa e a eficiência nas chances criadas serão fatores centrais para manter viva a disputa pela vaga na final.
O cenário torna a semifinal um teste de maturidade para o clube uruguaio. A campanha já demonstra que o time conseguiu atravessar fases eliminatórias e competir fora de seu campeonato nacional. Ainda assim, a derrota na ida mostrou que o salto para uma decisão continental exige desempenho consistente diante de adversários com maior profundidade de elenco e experiência em jogos de pressão.
Para o Atlético-MG, o confronto integra uma temporada em que a gestão do elenco e a disputa por objetivos nacionais e internacionais seguem no centro das atenções. O contexto do clube mineiro pode ser acompanhado em nossa análise sobre a rota do Atlético-MG pelo Brasileirão, que trata do peso da competição na busca por uma vaga na Libertadores.
Um projeto jovem diante de uma oportunidade histórica
O Montevideo City Torque chega a esta etapa com uma trajetória que, em menos de duas décadas, passou das divisões inferiores à disputa por uma vaga na final da Sul-Americana. A venda ao Grupo City acelerou mudanças na estrutura e na identidade do clube, enquanto as campanhas recentes deram dimensão continental ao trabalho. O percurso não apaga os anos sem classificação internacional nem transforma investimento em garantia de sucesso, mas explica por que o time passou a ser observado com atenção no Uruguai.
A partida no Centenário definirá se a campanha terá mais um capítulo ou se a vantagem construída pelo Atlético-MG será suficiente para encerrar a disputa. Para o Torque, avançar exigiria uma reação de grande porte; para o Galo, administrar o placar sem abrir mão da competitividade será decisivo. Independentemente do desfecho, a semifinal confirma o alcance do projeto uruguaio e coloca à prova sua capacidade de competir contra um dos principais clubes brasileiros.


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