Venda de Allan ao Manchester City levou o Palmeiras a ter de apresentar contratos e informações financeiras à Justiça de São Paulo, que apura valores devidos pelo Figueirense em uma ação movida desde 2020. O clube paulista não é réu nem acusado: foi incluído no processo porque precisa esclarecer e manter retida a parcela que caberia ao time catarinense.
Fatos centrais da notícia
- O Palmeiras deverá detalhar os contratos e os valores da transferência de Allan ao Manchester City.
- O Figueirense tinha direito a 10% da negociação, mas a Justiça determinou que os valores permaneçam retidos até nova autorização.
- O clube paulista afirma que cumprirá eventual intimação e adotará medidas para preservar informações confidenciais do contrato.
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Venda de Allan entra no centro de uma disputa judicial
A determinação não transforma o Palmeiras em parte acusada no processo. A ação foi apresentada pela M&F Investimentos e Participações contra o Figueirense, e a presença do clube alviverde decorre de uma questão prática: foi o Palmeiras quem negociou o jogador e deve repassar ao clube catarinense a fatia prevista nos direitos econômicos.
Como há mais de uma cobrança relacionada ao dinheiro que o Figueirense pode receber, a Justiça quer identificar quanto foi pago, quanto ainda será depositado e qual quantia precisa ficar bloqueada. A documentação também deve permitir que o juízo decida quem tem prioridade sobre os créditos, sem que o Palmeiras transfira recursos a um credor antes de uma autorização.
O caso mostra como uma negociação esportiva pode gerar obrigações posteriores que não se encerram com o anúncio do jogador. O desfecho depende da conferência dos contratos, dos comprovantes de pagamento e das decisões tomadas nas ações que envolvem o Figueirense.
O que o Palmeiras informou sobre a transferência
Em setembro, o Palmeiras apresentou à Justiça dados sobre a conclusão da transferência definitiva, registrada em 1º de setembro de 2026. O documento indicou o valor de 37.416.960 euros, com pagamento previsto em quatro parcelas anuais. Portanto, o recebimento não ocorreria integralmente de uma só vez: os repasses do Manchester City seriam feitos ao longo do calendário contratual.
O clube informou que o Figueirense tem direito a 10% do valor líquido efetivamente recebido pelo Palmeiras. Esse detalhe é relevante porque a parcela do clube catarinense acompanha a entrada de cada pagamento, em vez de ser calculada como se todo o montante já estivesse disponível. A Justiça quer conhecer os valores líquidos e os descontos aplicados em cada etapa.
A negociação foi acertada em 24 de agosto por uma composição divulgada de 40 milhões de euros, somando parte fixa e bônus. O valor de 37.416.960 euros levado ao processo e a cifra total divulgada para o negócio não devem ser tratados automaticamente como números incompatíveis: um se refere à informação formal sobre a transferência e os pagamentos, enquanto o outro inclui a composição anunciada entre valor fixo e variáveis.
O Palmeiras também havia comprado mais 20% dos direitos econômicos de Allan junto ao Figueirense, em operação formalizada em 8 de maio de 2026. Com essa aquisição, o clube paulista passou a ter direito a 90% dos valores da negociação, enquanto os 10% restantes ficaram associados ao clube catarinense. O documento dessa compra é um dos que a Justiça quer analisar.
Venda de Allan: documentos e valores que serão cobrados
Em decisão de 14 de outubro, a juíza Marcella Leal Restum determinou que o Palmeiras apresente os contratos relacionados à chegada de Allan, em 23 de janeiro de 2019, e à aquisição de parte adicional dos direitos econômicos, em maio de 2026. O pedido foi feito pelo Athletico no processo. A ordem busca reconstituir a cadeia contratual e esclarecer quais compromissos foram assumidos entre os clubes.
Além dos instrumentos assinados, o Palmeiras deverá informar se recebeu a parcela que tinha vencimento previsto para 2 de outubro e indicar o valor. Também deverá discriminar quanto entrou líquido, qual seria a parte correspondente aos 10% do Figueirense e que montante segue retido por determinação judicial.
Outro ponto é uma bonificação de R$ 750 mil, cujo pagamento estava previsto para 16 de setembro. Segundo as informações apresentadas pelo Palmeiras, a quantia não pôde ser paga por causa de uma ordem da Justiça. O clube também esclareceu que esse valor não se confunde com eventual crédito ligado ao Mecanismo de Solidariedade da Fifa, mecanismo destinado a reconhecer a participação de clubes formadores em determinadas transferências.
A separação dessas rubricas é importante para evitar que verbas de naturezas distintas sejam somadas ou atribuídas ao mesmo beneficiário. O percentual contratual do Figueirense, o bônus previsto no negócio e uma possível verba de solidariedade têm origens diferentes. A documentação deverá demonstrar os critérios usados em cada cálculo, sem presumir que todos os valores estejam liberados para pagamento.
Por que os repasses continuam retidos
A M&F Investimentos pediu, em agosto, o bloqueio de valores que o Figueirense teria a receber pela transferência. A Justiça aceitou o pedido de penhora, e R$ 5,9 milhões foram bloqueados do clube catarinense. Em janeiro de 2026, o valor da dívida mencionado no processo era de R$ 8.984.202, quantia que ajuda a dimensionar a disputa, mas não substitui a apuração atual dos créditos disponíveis.
O cenário ficou mais complexo porque o Palmeiras informou à Justiça a existência de outras pretensões sobre os valores: uma apresentada pelo Athletico e outra ligada a um processo trabalhista. Diante de concorrentes que reivindicam créditos do Figueirense, a juíza determinou que o clube paulista mantenha o dinheiro sob retenção até que os pagamentos sejam autorizados.
Na prática, essa medida reduz o risco de um repasse feito ao credor errado ou em desacordo com uma ordem judicial. Para o Palmeiras, a cautela significa aguardar a definição do juízo antes de transferir a parcela. Para o Figueirense e os credores, significa que a existência de um crédito não garante acesso imediato ao dinheiro: será necessário esclarecer a ordem de preferência e o alcance das decisões.
O tema também ilustra como o vínculo entre clubes pode ultrapassar o campo. Em negócios internacionais envolvendo o Manchester City, a circulação de atletas e as estruturas do Grupo City compõem um contexto mais amplo, como mostra a trajetória do Montevideo City Torque no Grupo City. Neste caso, porém, o ponto decisivo não é a estrutura esportiva do grupo, e sim a documentação financeira da transferência e a disputa pelos créditos do Figueirense.
Confidencialidade do contrato e próximos passos
O Palmeiras declarou que ainda não havia sido notificado formalmente da decisão. O clube afirmou, contudo, que cumprirá a determinação caso receba a intimação, tomando providências para preservar o caráter confidencial do contrato firmado com o Manchester City. A preocupação diz respeito à divulgação de condições comerciais de uma negociação privada, sem afastar a obrigação de fornecer os dados exigidos ao juízo.
O clube alviverde também informou que acompanha as ações ajuizadas contra o Figueirense para identificar a quem deverá fazer o pagamento. Segundo o Palmeiras, o time catarinense foi comunicado sobre a obrigação de repasse, mas os processos em andamento impedem, neste momento, que o depósito seja realizado livremente.
Essa distinção é central: entregar documentos à Justiça não significa reconhecer uma cobrança específica nem admitir responsabilidade pela dívida do Figueirense. O papel do Palmeiras é esclarecer os valores da transferência e obedecer às ordens sobre a retenção. A decisão sobre quem receberá o dinheiro cabe ao Judiciário, conforme o andamento das ações e os créditos que forem comprovados.
Disputas sobre planejamento e gestão também afetam o cotidiano de outros clubes, embora por razões diferentes, como no caso das mudanças na defesa do Botafogo e da disputa por espaço entre seus jogadores. Aqui, a consequência imediata é financeira e documental: o cenário da defesa do Botafogo trata de escolhas esportivas, enquanto o processo de Allan exige separar contratos, parcelas e direitos de credores.
O que pode definir o desfecho do caso
Os próximos passos dependem da apresentação dos documentos solicitados e da análise judicial sobre os valores que ainda serão recebidos. Entre os pontos que podem esclarecer o quadro estão a confirmação da parcela com vencimento em outubro, o cálculo líquido da participação do Figueirense, a situação do bônus de R$ 750 mil e a identificação dos montantes já bloqueados.
Também será necessário compatibilizar as reivindicações da M&F Investimentos, do Athletico e do processo trabalhista com as ordens de retenção. Até que haja definição, o Palmeiras não pode tratar o percentual devido ao Figueirense como pagamento livre. O clube deverá manter a cautela, apresentar as informações requeridas após a notificação e aguardar autorização judicial para qualquer repasse.
A venda de Allan ao Manchester City, portanto, abriu uma etapa que vai além da transferência esportiva: a Justiça precisa rastrear a origem, o cálculo e o destino de cada parcela. Para o Palmeiras, a prioridade imediata é cumprir a ordem com proteção adequada das informações contratuais; para os credores, a liberação do dinheiro dependerá da decisão judicial sobre quem tem direito a receber.

